A Gente Ama Decor, e Mais Ainda Quando Tem a Cara do Dono

Sempre brinco com meus clientes que fazer um projeto é rápido, mas criar uma casa com personalidade exige calma, paciência e dedicação de todos os envolvidos. Uma professora da faculdade comentava nas aulas de arquitetura moderna, logo no primeiro ano, que os americanos adoravam falar sobre a possibilidade de construir um Lar e não apenas uma Casa, e ela mencionava como eles faziam isso com muita ênfase na diferenciação. Não à toa, os psicólogos costumam levar em consideração a relação de pertencimento que estabelecemos com um lugar e principalmente com o qual consideramos nossa Casa, porque muitas vezes durante um período de transição perde-se essa referência.

Acho interessante expressar aqui como algumas coisas me marcaram durante a minha construção como profissional. Ainda na faculdade um professor perguntou à minha sala: "O que é arquitetura pra você?”. Fiquei perplexa pois a primeira respondi que ouvimos foi: Um ideal de beleza. E eu respondi que pra mim a arquitetura deveria ser sentida, porque se fosse apenas algo belo, como os cegos a perceberiam? Acabei elaborando um trabalho sobre percepção arquitetônica que foi uma grande aventura, no entanto, também carreguei para sempre essa coisa do sentir. A arquitetura seja obra ou interior, é algo que deve transmitir um sentimento dos que ali habitam.

Sempre me encantei por profissionais que se preocupavam em dar personalidade à seus projetos, e que quando finalizavam os mesmo nos faziam sentir que seus residentes já habitavam aquele local há muito tempo. Restaurar mobiliários, destacar peças com memória, exibir pequenos fragmentos de sua história - seja por meio de peças herdadas ou souvenirs de viagens.

Acredito que os programas de TV dedicados à reforma e a proliferação de tendências pelas redes sociais, inclusive em grupos nos facebook, tenham influenciado demais nas escolhas de algumas pessoas recentemente. É preciso ter cuidado quanto à execução de um projeto buscando “uma casa com cara de Pinterest” - tanto pela frustração daquele que vai se ver habitando um local que não condiz com o seu perfil como também pela reprodução de algo puramente pela estética sem levar em conta outros aspectos relevantes para a criação do ambiente. Um exemplo disso foi o “estilo" escandinavo que foi largamente utilizado. Muitas pessoas o reproduziram a partir de uma cartela de elementos sem se identificar de fato com o mesmo ou a cultura escandinava.

Alguns arquitetos e designers de interiores tem sua linguagem própria e design autoral que são inconfundíveis e de certa forma, somos levados à isso. No entanto, uma coisa é vc ter uma linguagem arquitetônica inconfundível, outra coisa é você produzir interiores que não respeitem os que ali habitam. O papel do arquiteto é refletir no projeto os desejos do cliente. A decoração ideal reflete a personalidade, a memória e a identidade dos que habitam e fazem uso daquele lugar, é carregada de afeto, de carinho e acaba contando suas próprias histórias.

Ainda na faculdade, em 2012, li um texto que muito me chamou a atenção, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, o arquiteto Guto Requena "ensinou" os leitores a ter uma casa cafona em cinco passos. O 4 item, o mais marcante dizia assim: "A casa cafona utiliza apenas móveis e objetos novos e desconsidera a cultura e a história do local e de seu morador. Não se preocupe com materiais sustentáveis, ciclo de vida do produto ou impacto social de sua reforma. E a cada vez que mudar de casa, jogue tudo fora. Celebre o novo. Quanto mais caro, melhor. Atitudes sustentáveis e reuso para quê? Você nem verá o planeta entrar em colapso, não é?"

O relacionamento de um arquiteto/designer com seu cliente deve ser construído através de uma forte empatia a fim de entender os desejos de quem vai habitar aquele espaço. No momento em que sou arquiteta, minha criatividade está a serviço. É instrumento; ferramenta. O sentido do morar, da casa e do lar devem corresponder às expectativas do cliente. Sabemos que cada cliente tem seu sonho, sua vontade, sua expectativa. Não é obrigação do arquiteto impor sua vontade, e sim auxiliá-lo na busca pelo tão desejado projeto de lar.

Propiciar um ambiente como o desejado pelo cliente pode causar estranhamento à alguns, mas é a vontade do cliente que ali impera. Nesse momento os arquitetos assumem papel de curadores, de terapeutas, de caçadores de relíquias e de contadoras de história(s). O trabalho não é fácil, mas a recompensa é gratificante. Assim começo uma nova série textos aqui no Lolla, sobre decoração e construção de uma casa com personalidade.

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