O Que eu Aprendi Com Minhã Mãe Sobre Comprar Roupa

Com 06 aninhos eu comecei a compreender o que minha mãe fazia; Ela tinha um quarto em nossa casa com máquinas de costuras. Lembro que constantemente passava um senhor e deixava vários ‘pedaços’ de algo que para mim parecia uma borracha diferente.

“ O que é isso”?  Eu falava

“São pedaços de couro”,  era o que minha mãe sempre dizia, eu confesso que me sentia meio incompleta com as respostas. Queria saber mais, pois, ela entrava naquele quarto e só saia de lá quando todos aqueles ‘pedaços’ viravam uma jaqueta! ‘Como assim?’ ‘O que é couro?’ Pensava eu. E tudo isso se dava através daquelas máquinas, mas, era proibido colocar o dedo nelas, pois, podíamos machucar na agulha, ‘como assim?’ Ela se arriscava, era a minha conclusão. Me restava apenas visualizar de longe.

Tinha dias que ela pegava eu e minha irmã e nos levava a uma loja de tecidos. Eu achava aquilo divertido, e lembro de um tecido que sempre chamava minha atenção, ele era ‘todo furado’, alguns anos depois descobri que era lese. Depois da etapa da compra, sempre tinha a etapa de ‘tirar medidas’ a fita passava aqui, ali, ela anotava, eu observava. Replicava nas Barbies, mas, minhas roupas nunca davam certo nas Barbies, ficavam todas pequenas, ‘mãe, fiz igual você, passei a fita, cortei, costurei’  ‘Tem que ter sobra, senão a roupa não entra’ dizia ela, aquilo me confundia, sobra? Como assim? Mas antes que me perdesse nos meus pensamentos confusos de apenas 06 anos, ela me levava ao quarto para experimentar o vestido que havia costurado. Teve de lese, de cetim… Sim, teve o vestido rosa de cetim com mangas bufantes e laço na cintura.

Logo ela começou um curso de desenho, achei ainda mais divertido, lápis de cor, papéis, desenhos de vestidos, que incrível pensava eu. ‘Isso vai sair daqui e virar algo real’ era o que passava na minha cabeça. Agora eu queria saber o nome daquilo, fazia várias perguntas, ‘mãe qual o nome disso?’

‘Croqui, manequim, vestido, plissado…’ ela falava vários nomes, mas, nenhum me parecia responder o que eu queria saber. Um dia em uma chá da tarde em que ela conversava com alguém ( não lembro quem, me atentei só a conversa) ela falou ‘meu professor é estilista e estudou moda’ , era isso! Era esse o nome, Moda, tudo aquilo, lápis coloridos que faziam desenhos, pedaços de tecidos que viravam roupas, fitas que tiravam medidas, máquinas com agulhas perigosas, isso tudo era MODA.

No ano seguinte ela já não juntava mais os ‘pedaços de couro’, ficou apenas fazendo algumas peças para minha irmã e eu, mas, já não muitas, as lojas de tecidos foram trocadas por lojas de roupas. Mas, mesmo ali, ela observava cada peça, o corte,  o caimento, o tecido… era meio difícil ela achar na primeira loja, ‘não gostei’ dizia ela, e lá íamos nós para a próxima loja, quando ela falava ‘esse dá para várias ocasiões’ aí eu sabia que ela tinha gostado, pronto era aquele que ela ia levar. Ela gostava de comprar peças simples, bonitas e que usássemos em vários momentos, essa era a lógica de compra dela, e que eu aplico ainda hoje na minha vida, ensino minhas filhas e passo isso para minhas clientes, pois aliás, o ato de se vestir é simples e descomplicado. A gente que complica.