Aqueles que esperam

Na Índia

Na Índia

Quando eu era pequena, chegava em casa e jogava a mochila num canto, tirava o tenis e sentava no sofá com aquele uniforme de um dia todo. Lembro-me de ligar a tv, que sempre ligava no canal cultura, e ter uma propaganda da Ruth Rocha muito enfática na qual ela fazia propaganda da sua adaptação de “A Odisséia”, cuja frase de efeito era: “A Odisséia narra a volta de Ulisses para os braços de sua amada Penélope”.

A Odisseia é sequência de a Illíada, que narra a guerra de Tróia e que, por motivos óbvios eu já era apaixonada. O mais legal é que além de eu AMAR - assim mesmo, em letras garrafais - aquela coleção, que também tinha adaptação de outros clássicos como "Romeu e Julieta" e "Sonho de uma noite de verão", que eu também amava porque tinha uma Helena, eu passei a amar por conta da chamada. Que lindo, não? Voltar para os braços de sua amada... que jornada. Aquilo sim era legal, ao contrário dos príncipes da Disney, né?

Não sei se já comentei mas o meu sonho era ir para Inglaterra, porque quando a minha mãe leu o livro da Pocahontas (a versão romanceada pela Disney), eu achei o máximo ela querer ir para Inglaterra. Eu tinha oito anos e minha mãe nunca mais teve descanso desde então. O que todas essas histórias nos mostram, seja na "Ilíada", na "Pocahontas" ou até mesmo “Na Natureza Selvagem" é que independente da viagem (ou da jornada) sempre existe alguém à espera. A espera é parte da jornada de quem parte.

Na escola que estudava quando passava a propaganda do livro na tv resolveram pintar um muro com uma frase muito significativa: “Quem parte acena para voltar”... no entanto esqueceram de me falar que quem parte pode não ser o mesmo que retorna.

As vezes me pego imaginando como Ulisses voltou e o que aconteceu com Penélope nesse período de espera. Fico imaginando que após ter passado por tamanha jornada quantas histórias imbricadas ele não tenha trazido consigo e como ele as contaria para sua amada. Penso também no que Penélope teria feito nesse período.

Talvez não exista melhor metáfora para a vida como a viagem, por meio dela temos encontros, desencontros, mudanças, apreciação do tempo presente.. carregamos histórias e memórias que ajudam a compor nossa identidade mas o melhor de tudo é sempre ter alguém com quem dividí- las, e então me recordo do menino no ônibus em meio à floresta escrevendo “a felicidade só é real quando compartilhada”.

Hoje em dia as viagens são qualificadas de formas tão diferentes e o compartilhamento é instantâneo. Como teria sido o reencontro de Ulisses e Penélope se eles tivessem Instagram ? Ou então, imagino o Global Mindset que Pocahontas poderia ter desenvolvido com o acesso ao Google. Ruskin, filósofo e teórico, foi um grande crítico quando afirmou uma vez que a fotografia  recortava um cenário de forma a induzir o olhar de quem visse a mesma. O arquiteto Solá-Morales afirmava que a fotografia era complemento fundamento para vivenciar a arquitetura.

Perdi a conta de quantas manhãs passei com a minha mãe na biblioteca municipal, localizada num edifício histórico da cidade pesquisando coisas para a escola. Nunca esqueço uma manhã quando fomos pesquisar qual era o símbolo do folclore brasileiro... para eu descobrir horas mais tarde que era um cavalo marinho. Existem coisas que a internet não substitui. Ela pode me poupar tempo mas ele nunca vai me dar manhãs como aquela com a minha mãe na biblioteca. O Instagram nunca vai me trazer a sensação que eu tive no momento que vi a Capela Sistina, o WhatsApp nunca vai substituir o valor daquela cartão postal que eu enviei pro meu avô em Frankfurt, o FaceTime nunca vai ter o mesmo valor de uma conversa tête-a-tête.

Essa modernidade, que para o Bauman é líquida justamente por ser fluída, pode nos tirar muito de nossa jornada se não soubermos aproveitar os momentos nos quais nos desligamos dela. É maravilhoso estar na praia mais linda do mundo e poder nos conectar com alguém que amamos, mas não é maravilhoso fechar os olhos e conseguir apreender a sensação de estar ali, naquele lugar, naquele momento? Um momento passa tão rápido que não apreendê-lo seria desperdício. Se eu fecho os olhos quase que consigo lembrar do sabor ácido do limoncello que tomei sob um Bouganville rosa em Capri. Se me coloco em silêncio consigo ouvir o momento de oração que ecoava pelas ruas de Jaipur. Se quero ir mais longe, consigo sentir o vento gelado e a gota do sereno de São Francisco ou o cheiro de mirra no aeroporto da Etiópia.

Não, você não precisa fazer um detox digital em sua viagem, mas pode deixar esse momento para quando estiver descansando no hotel/hostel/airbnb. O que eu quis dizer é com esse texto é que não adianta o quanto a gente compartilhe em viagem, sempre existirá alguém à espera pelos detalhes, por menores que sejam... pelas fofocas, a descrição das oliveiras ou o cheiro das flores. Voltar de Israel com uma caixa de tâmaras e figo seco para dividir com a família enquanto compartilha histórias e fotos pode ser tão emocionante como receber 356 curtidas e inúmeras direct Messages no Instagram. Quem acena pra gente no aeroporto é justamente aquele que vai esperar por vivenciar conosco todos os detalhes da viagem, ver as expressões faciais, ou saber se você realmente teve a coragem de comer o tal do grilo na Tailândia.

Nas últimas viagens que fiz eu tive a oportunidade de ter um chip com internet constantemente, coisa que não gosto muito mas que foi necessária, especialmente para uma parte da pesquisa do doutorado. O resultado? Eu sempre deixo mensagens se acumulando... vejo curtidas atrasadas, por que de algum modo eu sou a pessoa que espera. Tanto a que espera pelos que voltam, como a que espera para contar sobre o que aconteceu. A tecnologia hoje é enorme aliada, sem dúvida, nos salva com N coisas - das ruas de Plaka ao Central Park, e como eu agradeço por ela (!) mas ainda existe uma prazer em viajar com moleskines e mapas de papel, em esquecer o Instagram e deixar corações pelas paisagens que passamos, sorrisos em pessoas e não apenas em telas. Sempre me lembro da música “3x5”, mas por mais que eu grave, certas coisas deveriam ser vistas com os próprios olhos porque nada substitui a emoção do momento. Que saibamos apreciar, vivenciar e esperar para compartilhar.