Baby Brain e depleção pós-parto.

Stella e Phil

Stella e Phil

Um cliente que eu estava de olho há bastante tempo marcou finalmente uma primeira reunião comigo e lá fui, privada de sono e sem muita concentração para a minha primeira reunião pós-parto. Eu não tinha ideia de como estava despreparada até chegar lá. 

Eu me senti a pessoa mais amadora e despreparada de todo o universo. Simplesmente não conseguia explicar o que elas precisavam em termos de estrutura para dar continuidade ao projeto de maneira objetiva. Parecida dar voltas e a última coisa que consegui passar pra elas foi segurança, que era o meu maior asset um ano antes. 

Saí da reunião aliviada por aquela tortura ter acabado. Depois de alguns dias falamos de novo sobre a proposta e elas decidiram que não era hora de investir no online, desconfio que seja verdade porque até hoje a marca não tem ecommerce. Mas a minha autocrítica não me permite acreditar nisso sem sentir que meu cérebro, que eu não reconhecia mais, estava me sabotando. 

Alguns estudos mostram que o cérebro de uma mãe de um recém-nascido muda de formato e assume um comportamento diferente. Nosso foco muda, ficamos sensíveis ao choro do bebê de uma maneira diferente e desenvolvemos mais empatia, porque nosso cérebro fica mais apto a reconhecer o que o outro precisa, é daí que conseguimos identificar o choro do bebê. O cérebro fica afinado para cumprir funções de sobrevivência e o instinto aguçado para as três necessidades básicas daquele novo habitante: leite, sono e calor. Só pensamos em manter os nossos bebês limpos, secos, quentinhos, com a barriguinha cheia e dormindo bastante. 

Os lapsos de memória podem ocorrer em consequência da falta de sono ou do aumento de hormônios. Nossa capacidade de aprendizado não muda e conseguimos exercer normalmente funções que já estávamos acostumadas, mas de alguma forma ficamos seletivas. Aquilo que não agrada ou que a gente acha que não merece atenção, pode sofrer falhas de execução - é o que acho que aconteceu comigo. 

Existe uma teoria chamada depleção pós-parto. Durante a gravidez e no período de amamentação, a gente perde muitos nutrientes e essa perda afeta diretamente como o nosso corpo e cérebro funcionam. Eu nunca tinha escutado falar nisso até depois do nascimento dos gêmeos. Os sintomas foram muito maiores, eu me lembro que nos primeiros dias eu estava completamente aérea. Eu agia como um robô, em piloto automático, não tinha muita força para nada. Meu parto foi complicado, perdi bastante sangue, tive que repor, fiquei internada por cindo dias. 

Quando eles tinham um ano mais ou menos, percebi que não estava no meu melhor. Tinha perdido muito peso e não conseguia controlar a minha irritação. Era como se o mundo que eu criei pra mim estivesse me consumindo, me encurralando e eu não tinha como sair daquilo. Foi quando eu descobri o postpartum depletion, buscando por postpartum depression. Eu não me encaixava no padrão da depressão pós-parto, mas tinha certeza que eu não estava no meu normal. Quando eu falava sobre os sintomas, todo mundo dizia que era normal, afinal tive gêmeos e o Ben tinha só um ano e meio quando eles nasceram, era too much to handle. Não achei informações relevantes sobre isso no Brasil, li neste artigo do Goop do Dr. Oscar Serrallach, que já escreveu um livro sobre o assunto. 

A maneira mais rápida de resolver isso era mudando a minha alimentação. Não me aprofundei muito nas questões e não fui diagnosticada, mas desconfiei que não estava na minha melhor performance. Fui no gastro e em uma nutróloga, cortei gordura e carboidrato e comecei a me alimentar de forma mais objetiva. Antes eu comia o que tinha, para saciar a fome. Hoje eu escolho o que eu vou comer de acordo com o que eu tenho que fazer naquele dia. Não tirei nada da minha alimentação, mas coloquei mais equilíbrio. Eu diria que demorou mais um ano para as coisas se encaixarem e não por acaso foi quando as crianças começaram a dormir melhor e a ganhar mais independência. Terrivelmente difícil identificar as causas reais.

Alguém já passou por isso, já ouviu falar em depleção pós-parto?