Coisas que deixamos pelo deserto ou coisas que aprendi no deserto.

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Confesso que eu e o sol temos um relacionamento recente. Apesar do meu nome ter Luz como significado, e meu signo ter uma ligação com o astro rei e a cor dourada, eu nunca me identifiquei com ele.. era algo muito.. muito… dia… Já a lua, a lua não… era só aparecia a noite. Nenhuma personagem de história olhava pro sol e pedia algo, geralmente ela pedia à lua, ou à estrela cadente.. E era isso que sempre me encantou: o céu noturno repleto de estrelas, e as estrelas que procuramos adivinhar se eram planetas ou não, aviões ou qualquer outra coisa.

 

Deitar no chão, olhar para o céu, procurar por constelações era uma diversão noturna e que faz extenso uso da minha imaginação até hoje, no entanto, não deito mais no chão pois a localização da minha cama é privilegiada, mas a diversão continua a mesma, só troquei estrelas por aviões e constelações por histórias. Meu prazer é acompanhar os aviões que passam e tentar imaginar o que eles carregam* , as pessoas que estão nele, seus destinos, suas origens e sua história. Acredite, imaginar que alguém está indo atrás do seu grande amor, do destino dos sonhos ou até mesmo uma simples viagem a trabalho.


“Ok, Helena, mas você está no terceiro parágrafo e ainda não falou um A sobre o deserto”

Explico: quando eu era pequena  a caminho da fazenda à noite minha felicidade era quando parávamos o carro no meio da estrada e meu pai desligada os faróis e lanternas para que pudéssemos ver “o céu de verdade”, um céu quase que prateado e repleto de estrelas. Um céu com tantas estrelas cadentes que me garantiu desejos para uma vida, embora eu não lembre de todos eles.

E essa paradinha era sempre uma surpresa, nunca algo planejado. Eu nunca sabia em qual lugar do caminho ele ia parar, mas era sempre no lugar que permitisse ver o céu. E eu lembro disso muito pequena, nós três: eu, mamãe e papai e aquele céu, azul da cor do carro que eles tinham na época. Não importa o tamanho, percurso ou duração da viagem, todas elas têm aquela surpresa que nos fará aprender muito mais do que algo estritamente planejado. E a frase de T.S. Elliot já dizia muito sobre isso: “The journey, Not the destination matters”.

Uma outra surpresa que tive a oportunidade de encontrar em uma de minhas jornadas foi uma noite do deserto próximo à fronteira com o Paquistão. Recordo-me que quando falaram sobre a possibilidade de passar uma noite no deserto o primeiro comentário que foi feito foi exatamente sobre o céu. “O céu mais lindo que eu já vi na minha vida, longe de qualquer luz advinda de qualquer outro lugar próximo, era como ver um mapa de todas as constelações”. Confesso que, embora eu não soubesse que o deserto em questão era na fronteira com o Paquistão, meu coraçãozinho vibrou com a possibilidade de tal vislumbre. Ansiei por conhecer o céu mais lindo que eu ainda não tinha visto.

 

"Antes disso” - a pessoa continuou - “você faz um safari de camelo, daí você chega nesse lugar onde o pessoal vai armar umas tendas pra vocês dormirem”. Confesso que só a idéia de andar no camelo já me deixou desesperada, pois eu não sou muito uma pessoa que se anima com longas jornadas do tipo, mas tudo bem, eu queria ver aquele céu prateado e as mil constelações, era o tipo de passeio que eu nunca imaginei fazer na Índia, para mim essa era uma experiência que eu teria em Dubai ou no Marrocos mas na Índia? Não …  Acredito que por isso eu não sabia o que esperar dessa experiência, muito menos o que ela me ensinaria.

 

Nosso grupo era formado por quatro amigos brasileiros e dois irmãos franceses. Eu nunca tinha conhecido dois irmãos tão amigos nem dois franceses tão sorridentes. Confesso que outro elemento presente era o medo. Afinal, estar no meio do deserto requer um pouco de coragem.

 

Para chegar até o deserto foram 13 horas da viagem de trem, alguns minutos de carro e posteriormente um tempo em cima de um camelo. Uso tempo porque a primeira coisa que o deserto nos ensina é sobre a dissolução das unidades para cronometrar o tempo. Nossa percepção muda, nossa sensação é outra. É como meditar de forma involuntária. É como entender o que dizem quando falam: “o tempo do universo é diferente”… assim é o tempo no deserto, (não à toa, o período que passamos sozinhos num retiro chama-se deserto). É um período de reflexão no qual olhamos para nós mesmos, sem a percepção do tempo, e reconhecemos o que precisamos, ou criamos diálogos maiores com o nosso eu interior.

 

Antes de chegar lá no meio do deserto, ao sair da cidade Jailsemer, A cidade dourada - na qual descemos na estação de trem antes de ir para o hotel tomar banho e embarcar nessa aventura toda - pelo caminho vi cumplicidade sob a forma de dois irmãos se protegendo em meio à cabras numa construção autóctone. Eu conheci o vazio completo de uma estrada sem horizonte, uma vez que céu, dourado pelo sol, se misturava à pequenas tempestades de areia… Paisagens geográficas que se misturavam à paisagens internas. Nessa pequena aventura, descobri a maravilha q é sair da minha zona de conforto.

 

Acredito que aquele tenha sido meu primeiro contato de fato com o sol. Ele que já vinha se apresentando ao longo do tempo, no nascer do sol que me acompanhava a cada noite virada estudando ou projetando, ou então que vinha me dar tchau quando eu chegava de uma festa em casa… ali ele pode me mostrar sua beleza ao se misturar com o dourado da areia num degradê de dourados que compunham um dos cenários mais lindos que já vi. Um cenário convidativo, um cenário nunca antes imaginado.

 

Acho que o maior choque do processo não foi o desconforto da viagem de camelo ou o super planejamento dos guias, mas foi quando ouvi “Estamos próximos à fronteira do Paquistão”. Pa-quis-tão, isso mesmo, aquele lugar que eu tão cedo ouvi na escola ou nos jornais…. e, ao invés de sentir um temor, eu respondi com: "Podemos ir até lá?”. Imagine como seria avistar aquela fronteira?! Óbvio que recebi um sonoro "Não" do guia, pois não seria seguro. Mas então o que seria seguro? Uma pessoa que estava em nossa casa em Jaipur queria ir a Caxemira. Deveria eu como arquiteta desejar apenas conhecer locais como Agra ou Chandigarh?

 

Não, eu poderia fazer tudo que eu quisesse, desde que não me machucasse, desde que não me expusesse ao risco. Desde que eu soubesse muito bem respeitar os limites, não  apenas os limites territoriais e geográficos mas também meus próprios limites. Entender a geografia física e a emocional pois, assim como o território, temos fronteiras a respeitar. Precisamos nos conter, nos assegurar, delimitar limites em nós, e controlar os sentimentos que extravasam.

 

Não era como estar num retiro, no entanto foi como aprender a postura da árvore da aula de Yoga. A postura que oferece três níveis (do iniciante ao avançado) é uma amostra que nos ensina que o equilíbrio perfeito não existe, cada um e cada qual tem sua própria forma de encontrar seu equilíbrio dentro de seus limites. Eu só precisava entender que eu encontraria meu equilíbrio e estabeleceria meus limites nos momentos certos. Eu me tornei minha própria heroína no momento que aprendi que as fronteiras ofereciam perigo mesmo estando no deserto, e restava a mim ter discernimento para saber o meu lugar no mundo e os limites a serem respeitados. Assim como mais tarde também entenderia que tudo bem recuar ou aumentar fronteiras, se preciso.

Naquele dia esperamos o sol se por como alguém que espera um espetáculo e se delicia com o mesmo uma vez que é tão surpreendente e único que você sabe que nunca será igual, assim como cada momento precioso da vida. Andamos em dunas e tiramos fotos e rimos como nunca tínhamos rido antes. Uma coisa que agradeci muito naquele dia, mas só saberia dar o verdadeiro valor a este fato tempo depois, foi que o meu celular ficou sem internet no momento que saímos de Jaipur, a cidade que morávamos, e por ser a única com internet ficamos sem contato com o mundo.

 

Com o início da noite e o nascimento de uma lua que parecia cada vez maior, a fogueira acesa, e o tilintar do fogo, o deserto nos apresentou momentos de amizade e cumplicidade, momentos de espera, outros ensinamentos sobre o tempo e limites (afinal, acreditem, eu fiquei 24h sem fazer xixi porque eu simplesmente não consegui aceitar o fato de que no deserto privacidade é algo que não existe - ah, ele talvez também tenha nos apresentado isso: privacidade, como estar tão longe de tudo e mesmo assim com tão poucos perto não conseguir um minuto de privacidade, a não ser os que usamos uma cabaninha no carro para poder trocar de roupa.

Quando o momento de dormir chegou, o deserto me ensinou sobre frustração. Não, o céu não era tão prateado como a expectativa que eu havia criado, e até hoje eu não recebi nenhuma explicação para aquilo.. não sei se foi por causa da época do ano (estávamos em pleno inverno) ou se foi por outro motivo. Mas ali, naquela noite, deixei minhas expectativas. Talvez aquele pudesse ser um céu prateado para os outros, mas pra mim, não era.  À noite o medo resultado dar um oi. Uma vez que dormiríamos no relento, como seria a sensação daquela areia dançando sobre nós? Estaríamos plenos no dia seguinte? Seria possível acordar sem areia nos cabelos ou no nariz? Entretanto o medo da noite deu lugar a risada do dia seguinte quando um amiga acordou com seu camelo deitado aos seus pés, quando o outro acordou com o cabelo loiro cheio de areia e o meu nariz entupido. Sem plenitude, apenas rindo e agradecendo pela experiência.


Entretanto, em outros desertos pude recuperar essa experiência sobre limites. Aprendi a reconhecer o princípio de amor, amor pleno e amor sorrateiro… como a cumplicidade dos irmãos que conhecemos. Também aprendi que nada é por acaso e devemos agradecer até mesmo pelo mal que nos acontece, que silêncio, como aquele presente na fronteira, é resposta mas que também pode ser sinal de preocupação… que a surpresa faz bem e pode ser boa, que o medo some e a risada prevalece.  

Que aprendi que mesmo tendo deixado as expectativas no deserto, acho que um pouco delas retornou comigo sob a forma de areia grudada no meu casaco ou no meu sapato. Falar sobre ensinamentos pode ser tão difícil e tão simples como falar que responsabilidades, rotinas e raízes podem ser a maior zona de desconforto… e viagens e liberdade extrema podem ser a maior prisão já vista (ou inventada) por outros - lembram das histórias que imagino ao ver os aviões no céu? Sempre penso nos que viajam a trabalho e não gostam, ou naqueles que têm medo de avião e estão lá.. como também penso naqueles que respiram liberdade porque não sabem conviver com a rotina "9 to 5".  

 

Quando voltei do mercado ontem me vi perseguindo o sol. Ele estava dourado como em se estivesse em seu esplendor e, assim, me convidada para correr atrás dele.. perseguí-lo me fez respirar com calma, admirar sua beleza e relembrar esse cenário de paisagens douradas no qual aprendi que pra ser inteira é preciso ser feliz de forma independente não permitindo que nada no mundo tire meu sorriso, o brilho que tenho na pele todas as manhãs quando acordo e penso que o dia será maravilhoso, ou no olhos quando expresso sobre minhas paixões e motivações e isso me dá mais foco e atenção do que qualquer outra coisa.. tudo isso advindo da minha própria felicidade e não de outro motivo qualquer. E então eu percebo do relacionamento que o sol começou comigo, e como ele me dá um certo brilho especial todo dia de manhã entrando pela janela do meu banheiro, e iluminando meu rosto quando me maquio, ou simplesmente quando me convida para caminhar pelo seu caminho, sem espera, sem pressa fazendo meu mundo se renovar a cada dia.

*há um grande aeroporto de carga em minha cidade e que por coincidência descobri hoje que recentemente ele foi interditado para o envio de baleias para os eua - isso mesmo, BALEIAS, coisa que nem mesmo a mais fértil das imaginações teria cogitado rs.