Interview: Carolina Fontana, Diretora Criativa do Estudio Íris e Co-founder da Casa 190

Ela é a mente criativa por trás da Casa 190, um coletivo de marcas que fica em uma casa  charmosa em Pinheiros e que será o host do próximo #lollatalks nesta quarta-feira e é a diretora criativa do Estúdio Íris, um bureau de criação que desenvolve estampas e projetos criativos e agora lança a sua segunda coleção de roupas. A Carol é dessas mentes criativas que navega pelas artes em todas as formas. Ela curte arte, literatura, moda, música, design e um taça de vinho com Netflix. A gente ama trocar nossas descobertas das coisas lindas da vida e debater sobre o nosso dia a dia, tentando equilibrar a família com um trabalho criativo. Hoje as 7h da manhã acordamos falando sobre a Sociedade Literária e a Torta da Casca de Batata, filme da Netflix sobre a sociedade literária que se reunia na 2ª Guerra Mundial.

Para participar desse #lollatalk é só aparecer na Casa 190. As 17h vai rolar um bate-papo com a Renata Perlman, consultora de imagem que a gente entrevistou aqui e as 18h o #lollatalks. 

Leia a entrevista

 

Conta um pouco da sua formação.

Minha formação é um pouco sinuosa. Sempre fiquei entre “dois mundos” que embora comunicantes por serem ambos expressões artísticas, nem sempre  são obviamente tão próximos na vida profissional. Literatura e moda eram desde sempre paixões mas tinha muito preconceito com o universo da moda e acabei fazendo faculdade de Letras na Usp e só depois, na metade da faculdade, fui estudar moda no Senac. Em um segundo momento fiz uma pós-graduação no IED e em um terceiro fui morar em Londres e me especializar em design têxtil e de superfície. Como nada na minha vida é plano, estudava design têxtil, trabalhava na Burberry no setor de desenvolvimento de estampa e depois ainda fui trabalhar em uma revista/bureau de pesquisa de tendência chamada GDR.

Você morou 10 anos em Londres, como foi o começo da sua carreira por lá?

Sou uma pessoa muito curiosa e com muitos interesses diversos. Sempre tive como característica uma mistura de muitos assuntos e acontecimentos. Tudo para dizer que nem bem pisei em Londres já comecei a estudar na Central st. Martins, trabalhar inicialmente no showroom da Burberry e depois de 4 meses no departamento de estampa da Burberry prorsum como assistente da head designer (que era o meu dream job da vida!). Tudo sem conhecer ninguém, em um misto de estar no lugar certo na hora certa com  uma paixão grande por esse mundo novo de design têxtil em que finalmente eu podia me atirar que deve ter inspirado meus empregadores na época. Tudo foi dando muito certo, eu estava fazendo o que eu mais queria fazer, eu um país que tem um grande respeito pelos profissionais de moda, que lida de uma maneira mais séria e profissional com o design.

As suas duas filhas nasceram em Londres? Como foi esse começo da maternidade em outro país?

Isso, as duas nasceram em Londres. Conheci o meu marido (brasileiro que morava em Londres na época em que nos conhecemos havia 10 anos) logo que por lá cheguei, por meio de amigos em comum. Depois de 2,5 anos nos casamos e Sophia nasceu em 2011. Clara em 2013. Foi tudo maravilhoso, uma experiência que para mim deu muito certo. Minhas duas gravidezes foram muito boas, os partos, atendimento hospitalar, tudo correu maravilhosamente bem. A parte difícil era estar longe dos meus pais, da minha irmã, do resto da família. A solidão (misturada com hormônios desregulados e cansaço crônico) batia bem forte em determinados momentos. Embora tudo tenha corrido bem do ponto  de vida médico, por assim dizer, foi um desafio bem grande lidar com a falta desse apoio emocional. Mas hoje olho para trás e não mudaria nada, os desafios me fizeram encarar com mais leveza várias outras situações difíceis que passei.

Quando voltou para o Brasil, você já sabia exatamente o que iria fazer?

Não!!! Minha impressão é que depois que minhas filhas nasceram eu nunca mais soube com certeza o que iria fazer, digo planos a médio e longo prazo rsrsrs. Eu só tinha certeza que queria ajeitar tudo, me instalar, mudar para minha casa nova e eventualmente voltar a trabalhar em algo que genuinamente acreditasse e me desse prazer, um dia. Demorou um pouco para ser viável eu deixar minha filha de 1 ano em algum lugar ou com alguém (minha mais velha já ia à escola)  e ter algum tempo para pensar em algo que só disesse respeito a mim, nada relacionado a filhos, casa, escola etc. Essa volta para o Brasil não foi muito fácil.

Você começou empreendendo com a Casa 190. Como foi isso?

Foi meio sem querer, meio loucura. Encontrei uma maluquinha, amiga minha, que topou realizar o sonho de termos um espaço que poderíamos chamar de nosso. Vai fazer quase 2 anos.

Eu sinto muita falta de algum lugar acolhedor que eu possa ir em um dia que preciso de inspiração ou simplesmente quero fugir do dia a dia e ter uma imersão em um lugar lindo e acolhedor. Eu sinto que a Casa 190 está indo por esse caminho. Quais seus planos para ela?

É exatamente isso que sempre buscamos na Casa 190. Muitas clientes chegam e não querem ir embora, acho que conseguimos aquela sensação de uma casa aconchegante mesmo. E essa sempre foi nossa idéia. Queremos agora estender e oferecer, além de produtos, experiências, cursos, talks, workshops, possibilidades de encontros entre pessoas bacanas com idéias bacanas.

Há pouco tempo você começou um novo projeto, o Estúdio Íris, que é um estúdio de criação e desenvolve algumas coleções com estampas próprias. Como é o processo de criação dessas estampas até chegar ao produto final?

Meu processo de criação é contínuo, estou sempre olhando, lendo, desenhando. Vou constantemente juntando referências, cheiros, sons, filmes, cores, viagens, livros e em determinado momento pego lápis ou pincel e começo a concretizar todas essas experiências.

Aplicar uma estampa em uma peça de roupa deve ser desafiador. Você imagina primeiro o produto e depois a estampa ou é ao contrário?

Imagino sempre a estampa e depois a peça em que ela vai. Na verdade meus produtos surgem da necessidade das estampas estarem em algum lugar. Como forma de expressão delas.

Eu imagino que você tenha um filtro de inspiração ligado 24/7. Como faz para selecionar aquilo que é inspiração do que é só poluição mental?

Não faço! Hahahaha, brincadeiras à parte, acho que nesse contínuo de criação em que inevitavelmente todo criador, acredito eu, está imerso, nosso desafio é esse também. No começo não está muito claro o que é uma referência que vale a pena guardar de uma que é descartável, mas depois vou excluindo e chego lá, tudo se encaixa, é uma coisa até intuitiva. Mas o resultado de uma mente inquieta e olhos incessantes são enxaquecas frequentes, no meu caso rsrsrs

Para essa coleção, a sua inspiração veio de uma viagem que fez para a Itália há dois anos. Em que momento ela voltou e você decidiu seguir esse caminho?

Acho que foi uma música que ouvi na rádio Eldorado há um tempo atrás, em italiano, que me deu o clique. Ja tinha um material que apontava nessa direção e minhas referências todas de cores e traços traziam isso naquele momento e a música me indicou claramente, voltou todas as emoções dessa viagem.

Como é o seu processo de criação? Já ouvi de algumas mentes criativas que eles encaixam horário no calendário para criar. Com você também é assim?

Não, muito pelo contrário, não consigo ter “horário para criar”, não funciona. Não existe essa separação. Minha vida toda, todas as experiências que vivo não deixam de ser parte do processo de criação. Claro que tem a hora que tenho um deadline e preciso inevitavelmebte pegar um lápis e começar a desenhar mesmo que não esteja no mood para isso. Mas normalmente desenho quando viajo, quando estou em paz, tranquila, em silêncio com minhas playlists inusitadas. Para mim é muito importante estar tranquila.

E como você faz para coordenar seu dia a dia no Estudio Íris, na Casa 190 e a família? Alguma dica de otimização de tempo?

Eu tento organizar meu dia para fazer a maior parte do que tenho que fazer enquanto minhas filhas estão na escola. Na prática nem sempre consigo estar em casa logo que retornam de tarde ou pegá-las na escola (o que me faz re-avaliar constantemente minha vida profissional em meios a momentos de culpa) mas rigorosamente faço a lição de casa com elas, leio os livros dela e sempre as coloco para dormir. Depois que estão na cama aproveito para colocar redes sociais em dia, responder os últimos emails do dia  e por fim tentar me desligar de tudo (o que obviamente não consigo na maior parte dos dias) e ver uma série na netflix ou ler um livro.

Você também sente que estamos o tempo todo com brain fog? Um pouco confusas até no fim do dia, de tanto pular de um assunto para o outro?

Totalmente!! Minha impressão é que uma hora tudo vai fundir! Fazemos muitas coisas ao mesmo tempo: é o menu do almoço, o supermercado a fazer, o e-social a pagar, boletos a vencer, o evento a organizar, reuniões na escola… Uma loucura. Sinto que não é saudável e confesso que me orgulho da eficiência invejável em que assim como eu muitas mães-profissionais lidam com assuntos tão diversosos. Mas, sinto que  não é saudável. Mas por hora é assim que funciono e o que faz ser possível ser uma mãe presente, profissional realizada e mulher do meu marido.

Algum truque para unwind no fim do dia?

Eu tenho meu ritual de tomar um banho, colocar uma roupa confortável, silenciar o telefone, fazer um chá e sentar para ver uma série na netflix. Ou um vinho com queijos na companhia do meu marido, amamos! Minahs filhas dormem super cedo então temos algumas horas no final do dia depois de colocarmos elas na cama e antes de desmaiarmos de cansaço para curtirmos uma vida a dois. Por fim, SEMPRE leio antes de dormir. Nem que seja 2 da manhna depois de um jantar com amigos, eu preciso ler pelo menos uma página, desde que me lembro por gente leitora.

O que você está lendo agora? 

Eu amo jornalismo literário, comprei vários na Amazon. Acabei de acabar The Year of Magical Thinking da Joan Didion e comecei The Voyeur's Motel do Gay Talese. 

Seu programa favorito com as crianças?

Adoramos viajar com elas!

Melhor lugar para um almoço com as amigas?

São Paulo tem muitos restaurantes gostosos, mas ainda o que eu mais gosto é de fazer uma bela mesa e receber as amigas na minha casa!


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Espero que vocês tenham curtido a entrevista! A gente se vê na Casa 190 nesta quarta-feira, dia 12/09. É só chegar! 

R. Cônego Eugenio Leite, 190. A partir das 12h e talks a partir das 17h.  

Em parceria com a Casa 190. 

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  #lollatalk - Para participar é só aparecer.

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Estão todas convidadas para passar na Casa 190, tomar um vinho e debater as questões da vida. O talk do Lolla foi inspirado nesse texto aqui, sobre construir um negócio e criar um família ao mesmo tempo.