Interview: Tabata Amaral, Ela fez Harvard, já sentou com o Obama e é fundadora de dois movimentos para mudar a educação no Brasil

Tabata Amaral.  Image Credits: Thomas Tebet  / Arquivo Glamour

Tabata Amaral. Image Credits: Thomas Tebet  / Arquivo Glamour

Eu tinha acabado de ver um Ted Talk (dá para assistir no fim da entrevista) com a Tabata Amaral quando logo depois ela apareceu na capa da Glamour como vencedora do prêmio "Gente que Faz" do Geração Glamour. Eu acredito que a educação é o único caminho para uma mudança de resultados efetiva. Isso me deixa um pouco desanimada, porque são pelo menos três ou quatro décadas que precisamos enfrentar para uma mudança significativa das pessoas que comandam a politica do Brasil, que podem fazer a diferença na educação. Por outro lado, saber que existem garotas tão comprometidas como a Tabata com a educação do país, mudou a minha perspectiva. Ela é super inspiradora, determinada e amiga do Obama, então...  

Q. Lendo a sua história, não tive como não te comparar a Malala Yousafzai. Vocês duas estão mudando o mundo embasadas na mesma premissa de Nelson Mandela, de que a "Educação é a arma mais poderosa do mundo'’. Você já parou para pensar nisso? 

A Malala é, sem dúvida, uma grande inspiração para mim e para todos os que trabalham e lutam por uma educação pública de qualidade para todas as crianças. Ela tem uma trajetória de vida incrível e é uma pessoa que conseguiu encontrar nas adversidades o seu propósito de vida e de luta. Ela tem uma frase de que gosto muito e que diz assim: “A melhor forma de lutar contra o terrorismo e pela educação é por meio da política. Por isso, fiz essa escolha. Um médico pode ajudar uma comunidade, mas um político pode ajudar todo um país”. Essa frase tem tudo a ver com o meu trabalho como cientista política e ativista por uma educação de qualidade. E foi muito legal você ter citado Nelson Mandela na sua pergunta porque justamente estou lendo a biografia dele, chamada Longa Caminhada até a Liberdade. Recomendo a todos!

Q. Conta um pouco de como você chegou em Harvard.

Eu estudava em uma escola pública de São Paulo quando tive um bom desempenho na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e consegui uma bolsa em um colégio particular bastante conceituado, o Etapa. Com isso, tive acesso a novas possibilidades – e uma delas era a de estudar fora do Brasil. Eu me preparei bastante, inclusive aprendendo inglês, porque eu não sabia falar nada quando decidi estudar fora! Fui aceita em seis universidades americanas com bolsa, e escolhi a Universidade de Harvard.  

Essa é uma versão bastante resumida da minha história. E que, às vezes, é contada quase como uma história de herói, de um exemplo de 'quem quer, consegue, é só se esforçar'. De fato, eu me esforcei muito, mas eu precisei ter acesso a muitas oportunidades e contar com o apoio de muita gente para poder sonhar com um futuro diferente, para poder sonhar grande. A gente está em um país onde há muitas desigualdades. Minha crítica não é à meritocracia em si, mas em querer aplicar a meritocracia quando o ponto de partida é desigual.

Q. E como foram seus primeiros dias na faculdade? Você sentiu algum tipo de preconceito por ser mulher e brasileira? 

Quando eu cheguei a Harvard eu tinha três problemas muito específicos: a comida era muito ruim, fazia muito frio e a água era muito salgada para mim, por alguma razão! Mas, brincadeiras à parte, quando eu cheguei aos EUA eu quase não falava inglês. Eu havia feito um curso, mas não era suficiente para acompanhar as aulas. Eu também tinha acabado de perder meu pai e minha mãe estava desempregada aqui no Brasil... foi um período bastante difícil para mim, de adaptação. Mas, com o tempo, as coisas foram se ajustando. Eu fiz amigos, encontrei as aulas que mais me interessavam e percebi que era importante que uma pessoa como eu estivesse ali, levando para um lugar tão incrível pontos de vista que não são muito representados lá, como esse olhar da periferia de um país como o Brasil. 

Q. Em uma entrevista à Carta Capital você fala sobre a crença que alguns brasileiros têm de limitar às conquistas ao esforço. "A crença de ser merecedor" e as "oportunidades também contribuem na equação do sucesso”. Ao ler isso, pensei nas mulheres e falo de todas as classes sociais, que de alguma forma não apostam nelas mesmas e abrem mão de conquistas profissionais pela carreira dos maridos e da família. A mudança da cultura machista também tem um papel crucial nesses resultados, não acha?  

Às mulheres faltam oportunidades – muitas vezes, oportunidades de sonhar grande. Um sintoma disso é falta de lideranças femininas que, infelizmente, ainda são raras. Seja no campo da política, das artes ou dos negócios, existe uma grande chance de você se lembrar primeiro de um homem do que de uma mulher de destaque. Para se ter uma ideia, menos de 10% dos conselhos de administração de grandes empresas no Brasil são compostos por mulheres e, dos 100 filmes mais bem-sucedidos do ano passado, apenas 8 foram dirigidos por uma de nós. E na política não é diferente. No Brasil, há 7 vereadores (homens) para cada 1 vereadora (mulher). Sem dúvida, isso é resultado de uma cultura machista que precisa ser revertida. Mas o melhor de ser mulher de nosso tempo é que podemos lutar para que essa situação mude e com certeza hoje há mais conscientização do que há alguns anos.   

Q. E somado a isso, a concepção do "quem quer consegue" é como um freio. Parece que o sucesso e a conquista estão disponíveis somente para quem tem sorte ou nasceu com um dom. Se a gente for analisar as historias de sucesso de perto, vamos ver que todo um sistema contribuiu para isso, com pessoas interpretando papéis chave, como foi seu caso com as ajudas e incentivos que recebeu. Como passar para as pessoas a noção de que esforço diário, resultado no curto prazo vão te destacar sem que a pessoa desista? 

Um passo importante é justamente desmistificar a questão do “quem quer, consegue” e do “basta trabalhar duro que é possível”. É preciso parar de contar histórias como a minha como se fossem resultado de um único indivíduo. Por isso, sempre conto sobre as pessoas que me ajudaram, as oportunidades que me foram oferecidas e os obstáculos que só foram superados porque tive apoio. Isso não quer dizer que o esforço pessoal não importa, mas é preciso reconhecer que é preciso mais. Principalmente em uma sociedade tão desigual como a brasileira. 

Q. Você mudou seu curso para Ciências Políticas em Harvard e manteve Astrofísica como o curso secundário. Depois da morte do físico Stephen Hawking e com as recentes conquistas espaciais da The Boring Company do Elon Musk, a física começou a virar um campo com mais curiosos e a pauta veio parar nas rodas de conversa de pessoas leigas (eu a minha irmã entramos nessa, ela é engenheira da Unicamp como o seu irmão). Você ainda se envolve nessa temática de alguma forma? 

Sim, sem dúvida. Assuntos ligados às ciências me interessam muito e sempre vão me interessar. Apesar de não ter sido a minha principal escolha profissional, a astrofísica ainda é tema de muitas conversas minhas! Interessante você citar Stephen Hawking na sua pergunta porque ele foi um dos responsáveis por eu me interessar tanto pela ciência. Acredito que uma das principais contribuições dele ao mundo foi ter tornado a ciência uma coisa tão encantadora. 

Q. A sua tese em Harvard foi base para o Movimento Mapa Educação - um movimento que luta por uma educação de qualidade a todos os estudantes do país, liderado por jovens. Este ano teremos eleições, conta um pouco como estão indo os projetos do movimento?

O Mapa Educaçãoé um movimento formado por centenas de jovens que têm como missão lutar por uma educação de qualidade para todos os brasileiros, fazendo do jovem o protagonista dessa mudança. Atuamos na fiscalização de políticas e no debate educacional para tornar a educação, de fato, uma prioridade na agenda nacional. Na frente de mobilização de jovens, realizamos pesquisas, conferências e debates, criando uma ponte de diálogo entre jovens e o governo. Na frente de fiscalização política, realizamos campanhas e acompanhamos a implementação de políticas educacionais.

Q. Qual o caminho para quem quer trabalhar com o Movimento Mapa Educação de alguma forma?

A melhor forma de se manter atualizado sobre o Mapa Educação – e também sobre o Acredito, outro movimento do qual sou co-fundadora – é por meio das redes sociais. Sigam o @mapaeducacao,@movimentoacreditoe o @tabataamaralspque sempre posto as novidades por lá. 

Q. Como é o dia a dia do seu trabalho no Movimento? 

Além do meu trabalho com os movimentos, também sou comentarista da Rádio CBNe colunista da Revista Glamour. Isso quer dizer que estou sempre atravessando a cidade – quando não o país – e conversando com muitos jovens, seja por meio de palestras ou debates. É um privilégio para mim trabalhar com aquilo que amo e que acredito contribui de forma tão ativa para um futuro melhor para o Brasil. 

Q. Vocês já tiveram alguma mudança no cenário político desde que começaram o Movimento? 

Uma das vitórias alcançadas pelo Mapa Educação é uma mobilização que acabou com a indicação política como forma de seleção dos diretores escolares de um município. Já no Acredito, movimento de duas mil pessoas em 14 estados, alguns exemplos são aulas periódicas de educação política em escolas públicas e um protesto exitoso contra a decisão de uma escola de negar a rematrícula de uma aluna trans de 13 anos.

Na capa da Glamour de Abril/2018 com a MC Soffia 

Na capa da Glamour de Abril/2018 com a MC Soffia 

Q. Você ganhou o prêmio "Gente que Faz" da Geração Glamour esse ano. Você curtiu se preparar para o evento e todo o glamourou é mais homebody?

Participar do prêmio “Gente que Faz”foi uma das experiências mais bacanas e diferentes que tive no ano! O mundo da produção e das fotos é muito diferente do meu, e eu realmente acredito que a gente aprende um montão sempre que entra em contato com outros mundos. Além disso, pude conhecer muita gente bacana.

Q. Como foi o seu encontro com o Obama? Sobre o que falaram? Como ele é? Eu acho que ele é daquele tipo de pessoa que sempre fala algo que faz a gente pensar por dias. To certa?

 

Ele é uma pessoa extremamente humana, extremamente doce e que escuta as pessoas. Ele realmente olha nos seus olhos e dá aquele aperto de mão. Ele falou pra mim: 'olha, você não está sozinha'. Isso fez meu dia. Estou extremamente feliz, grata por essa oportunidade, muito emocionada e muito animada para continuar.

Q. Qual foi o último livro que você leu?

Purple Hibiscus, da Chimamanda Ngozi Adichie.

Q. E serie que assistiu?

La Casa de Papel

Q. Você tem planos de ser uma gestora pública, isso me deixou extremamente empolgada! Você já tem um plano traçado e sabe onde quer chegar? E quando!? 

Por meio do Movimento Acredito eu trabalho pela renovação política. A crise política e toda a mobilização que veio a partir de 2013 tiveram um impacto nos jovens. O prazo de validade do tipo de política que está aí já passou faz tempo. Estamos indignados e estamos transformando nossa indignação em ação. Em relação a mim, especificamente, quero um dia participar da política formal. Vou fazer isso quando eu sentir que as pessoas se sentem representadas por mim e pelas ideias que eu defendo. Acredito que é onde eu posso ter o maior impacto.

TABATA AMARAL NO TED TALK

fonte: g1

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