Maternidade: Como o mito da perfeição pode fazer mal

 

by Alessandra Levy del Drago 

Atire a primeira pedra quem nunca julgou outra mãe, mesmo sabendo que a maternidade é uma das funções mais complexas da vida, senão a mais... A capa recente da Time sobre o mito do endeusamento da maternidade fala sobre isso, e de várias outras questões envolvendo esse tema.

Basta você anunciar que está grávida que automaticamente está apta a receber todas as dicas de todas as pessoas que você conhece, mesmo aquelas as quais você não tem nenhuma intimidade. Detalhe: você não perguntou.

Depois que o seu filho(a) nasce, virará alvo dos patrulhamentos iniciais: o do parto natural e da amamentação. As que tiveram cesariana por opção ou por necessidade têm que praticamente se desculpar perante as defensoras do parto natural. Na questão da amamentação o patrulhamento é um pouco mais disfarçado, mas dificilmente a mãe que não amamentou não é taxada de preguiçosa ou egoísta pelas que amamentaram por mais tempo.

A revista traz dois casos extremos envolvendo essas duas questões. No primeiro, uma mãe que fazia questão de ter o filho em casa, acabou sofrendo complicações e não resistiu. No segundo caso a mãe não conseguiu ver que o bebê estava subnutrido por fazer questão do aleitamento materno exclusivo.

Em que momento da história nos tornamos fiscais da “boa maternidade”? Em que momento nos tornamos tão xiitas em relação a questões que deveriam ser decididas pela família? O melhor parto não deveria ser o que mãe e filho saem bem? A melhor forma de alimentação de uma criança não deveria ser aquela que garanta seu crescimento? Por quê uma mãe precisa ser melhor que a outra? Por quê o que é diferente do que eu acredito é pior?

Nada me tira da cabeça que a Internet ao mesmo tempo em que facilitou muito o compartilhamento de informações entre mães as colocou em uma situação de julgamento permanente. Vide um exemplo prático, caso uma mãe tivesse alguma dúvida no passado ela recorreria a no máximo três pessoas: ao pediatra, ao marido ou a avó da criança. Caso uma mãe tenha uma dúvida hoje, ela recorre: aos blogs de maternidade, ao YouTube, ao fórum  de mães do Facebook, ao grupo de mães da escola, ao direct das amigas no Insta, ao Google, ao pediatra e a avó da criança. Fica clara a diferença? Talvez o excesso de informações tenha nos tornado mais inseguras, mais confusas e alvos mais fáceis de julgamento.

Some-se a isso o fato das mulheres estarem mais presentes no mercado de trabalho, o que gera uma culpa enorme. E o mais louco é que a batalha continua nesse campo. As que param de trabalhar para se dedicar aos seus filhos, escutam constantemente que os filhos crescerão e que terão vidas próprias; e as que tem ajuda escutam das outras que estão terceirizando a educação. O mais engraçado é ouvir algumas conversas entre mães para observar que só há diálogo quando ambas pensam da mesma forma, caso contrário é uma conversa de pessoas surdas. Se no fundo vamos fazer o que queremos, porque nos importamos tanto com o que o outro pensa/fala a nosso respeito.

Uma coisa que eu já percebi e entendi, quando uma mãe vem se aconselhar com você ela não está necessariamente em busca de um conselho objetivo, mas de algo que a conforte em seus inúmeros medos e incertezas. Para nos ajudarmos e ajudarmos umas às outras, parta sempre do pressuposto que o que uma mãe mais quer é ver seu filho feliz. E como minha sábia psicóloga sempre diz: “você é a melhor mãe que o seu filho poderia ter, porque sem você ele não existiria”...


Alessandra Levy del Drago – Economista, ex-banker, ex-googler, mãe e apaixonada por conhecimento. Atualmente dá palestras de Atualidades no Clube Harmonia e para grupos fechados. No Instagram @atualidades_alelevy

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