Our Pick for International Women's Day? Jane Fonda.

Image: Getty / Art by Lolla Team /  earrings Haus of Dizzy

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Há pouco tempo escrevi um texto no qual conto que, ao viajar de avião, escolho assistir a um filme já visto, para poder ficar naquele estágio intermediário entre a vigília e o sono, sem perder o fio da meada.  Por outro lado, disse também, em outro texto recente, que sou uma metamorfose ambulante.

Para provar que estava certa, neste domingo viajei e talvez por reverência ao Oscar, cuja premiação acontecia enquanto eu voava, achei que seria uma heresia fazer uma sessão reprise, quando o mundo está abarrotado de filmes - e livros, séries e documentários - que ainda não tive a oportunidade de ler ou assistir.  E foi assim que maratonei “A esposa”, “Histórias Cruzadas” e um documentário da HBO sobre a vida da Jane Fonda chamado “Jane Fonda em cinco atos”.  Cada um deles me trouxe um oceano de reflexões, mas apesar de únicos e com temáticas e formatos bastante diferentes, as três obras me lembraram de um aprendizado comum: a imensa importância das histórias compartilhadas! As bandeiras, o ativismo e a argumentação são essenciais para mudar a sociedade, mas, às vezes, para tocar outra pessoa precisamos simplesmente baixar o tom e deixar que as histórias venham à tona. Deixar que as narrativas extravasadas falem por si mesmas. Histórias genuínas e reais (mesmo as fictícias, pois estas também podem ser absolutamente realistas) acabam ficando hasteadas mais alto do que qualquer bandeira.  

Um argumento feminista bem construído pode ser bastante eloquente, mas não conseguiria me sensibilizar da mesma forma que mergulhar na história de uma mulher que optou por ceder sua voz e seu talento para o marido por acreditar que não seria ouvida. O artigo teórico que li recentemente sobre racismo estrutural foi elucidativo, no entanto não revirou minhas entranhas tanto quanto a história das empregadas domésticas negras no Mississipi dos anos 60 que cuidavam o dia inteiro dos filhos dos patrões, mas não podiam usar o banheiro de suas casas.

As histórias calam mais fundo pois possuem texturas, e são elas que nos transmutam e nos transformam. Lembro que durante minha gravidez e nos primeiros anos de vida dos meus filhos li vários livros sobre educação infantil, todos extremamente úteis, com dicas e teorias importantes, mesmo que, às vezes, com uma overdose de regras e verbos conjugados no imperativo. Mas até hoje o livro de que mais me recordo, e sem dúvida o que mais me inspirou foi um chamado “O Cordão Mágico”, que na verdade era um livro de memórias afetivas no qual a psicóloga Lúcia Rosenberg compartilhava histórias singelas da criação de seus três filhos.

Neste domingo, mesmo que sem querer, celebrei antecipadamente o Dia Internacional da Mulher mergulhando nas histórias das personagens desses lindos filmes: Joan Archer, Aibileen, Minny, Skeeter, e nas de Jane Fonda. Além de atriz e “musa fitness” dos anos 80 - apenas para citar algumas de suas tantas camadas de existência - Jane foi também uma grande ativista política na época da guerra do Vietnam.  E segue militando em prol de causas humanitárias até hoje, principalmente nas ligadas ao empoderamento feminino.

Que ela continue emprestando sua celebridade para lutas importantes e indo para o palanque sempre que necessário, mas para mim, sua própria história transbordada (sua relação com o pai famoso, a trágica morte da mãe, seus três casamentos, a maternidade, seu trabalho, seus sonhos e ideais, seus erros e arrependimentos) – contada por ela mesma com tanta coragem e sinceridade – irá reverberar ainda mais alto do que sua voz no megafone.