Interview: Um Papo com a Arquiteta e Designer Roberta Sá Faustini. Design, joias e filhos.

Roberta Faustini e Deco

Roberta Faustini e Deco

Uma mulher cheia de ideias e de conceitos nobres, essa é a arquiteta e designer Roberta Sá Faustini.

Sentadas à uma mesa em um clube arborizado de São Paulo, tomando um café (eu) e um suco de açaí (ela), nosso papo aconteceu bem à sua maneira de viver: com calma, equilíbrio, respeitando o tempo e, de preferência, em meio à natureza.

Sua preocupação com a sustentabilidade guia grande parte do seu trabalho como designer. Foi a partir de uma caixa que embrulhava uma TV, e que viraria lixo se não fosse seu olhar especial e talentoso, que Roberta começou a desenvolver uma série de móveis com materiais descartáveis. Dessa experiência surgiu uma nova ideia. Roberta criou uma linha de Eco joias .“Tenho uma preocupação forte com a sustentabilidade. O ciclo de produção das minhas Eco Joias é todo sustentável, não apenas o material”, explicou. Quem executa o trabalho é uma instituição encontrada por Roberta, após longa pesquisa, que trabalha com a inclusão de pessoas com deficiência mental.

Conheça mais desse talento e como ela traz esses conceitos para a sua vida.

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Q. Roberta, a sustentabilidade é um assunto muito em voga hoje. Mas ainda são pouquíssimas as pessoas que transformam essa consciência em atitudes concretas. Conta um pouco mais sobre a sua descoberta e a importância dela no seu trabalho.

Entre outras coisas, a quantidade de lixo que geramos é dos assuntos que mais me preocupa. Foi por causa desse "incômodo" que comecei a pensar em como fazer uso de materiais que são descartados. Como a cadeira Xis e o banco lado a lado feitos com papelão.

Desenhei também uma estante reutilizando tubetes de papelão (descarte de formas de papelão para fazer colunas de concreto). Ela ganhou o nome de Ora Bolas e é toda feita com encaixes, sem pregos, parafusos ou cola.

As Eco joias são feitas com o reaproveitamento dos tubos dos rolos de papel higiênico e papeis reciclados.

Q. Como acha que as pessoas poderiam fazer pequenas contribuições e ampliar esses projetos?

Pensar em soluções mais amigáveis para o nosso planeta é uma maneira. Por que não utilizar um material de menor impacto ambiental?

Acho que devemos apoiar e incentivar as empresas e produtores que trabalham de forma responsável. Podemos ser mais conscientes no momento de fazer nossas compras, por exemplo, em relação ao seu material e o lixo gerado.

Na Islândia por exemplo, fizeram uma campanha e as pastas de dente são vendidas sem as caixinhas.

Lixo nós não jogamos fora, apenas tiramos da nossa frente.

Mas é possível colaborar, precisamos sim reciclar. Sei que dá trabalho, e é inacreditável que nos dias de hoje, além de separarmos precisamos muitas vezes levar a locais de coleta seletiva, para não corrermos o risco de ir tudo misturado para o lixo "comum". Mas aquela frase que já virou clichê, de que "se todos fizermos um pouco, fará uma grande diferença", é fato!

Q. E na educação dos filhos? Você é mãe de um lindo menino de 4 anos que tem a oportunidade de acompanhar e viver as suas ideias. Explica para a gente como envolvê-los nesse universo.

O Deco  e eu adoramos fazer arte, atividades e brinquedos com reaproveitamento de materiais. Desde bem pequeno criei com ele esse hábito.

Guardamos caixas, rolos, tubos, cordões que iriam para o lixo e fazemos diversas coisas: foguete, carros, casa, peixe, polvo, tubarão, cobra, balão etc.

Uma ótima forma de desenvolver a criatividade, a coordenação motora e ainda dar a criança a sensação de satisfação por alcançar um objetivo.

Incentivo tanto esse hábito que outro dia eu peguei uma caixa grande de papelão para enviar um material (rolinhos do tubo de papel higiênico) para a instituição que trabalha comigo. Quando o Deco viu, queria de qualquer jeito a caixa para fazermos um carro que ele pudesse entrar. Depois de tanta argumentação, ele me convenceu (rsrs), mas como eu realmente precisava daquela caixa, fomos atrás de outra e cada um ficou com uma.

Mas a melhor (ou pior)  foi um dia cortando as unhas dele e ele disse: “- mamãe, vamos guardar para fazer uma arte!” Não! Não precisamos guardar as unhas cortadas!! rsrs

Q. Antes de ingressar na arquitetura e design (sua formação), você foi sócia de uma empresa de artigos personalizados, a Heart to Heart. Ainda envolvida com a empresa, começou a projetar seus móveis sustentáveis. Como você me disse “nessa época ainda conseguia equilibrar os pratos”. Mas daí, veio a maternidade. Como foi para você o “click” de que não conseguiria mais equilibrar tudo tão bem?

A maternidade, principalmente nos primeiros meses (diria até primeiro ano) e especialmente quando a escolha é amamentar é uma fase de bastante dedicação e doação. Para mim foi uma fase maravilhosa e feliz, porém também começaram a vir questionamentos e percebi que tinha que olhar as prioridades. Foi bem a sensação de que um pratinho ia cair, foi quando vendi a Heart to Heart.

Q. Essa vida “equilibrada” é tão difícil de conquistar, não é mesmo? Principalmente quando se é mãe, profissional e moradora dessa cidade louca de SP. O que faz na sua rotina para buscar esse balanço?

Sim, conquistar esse equilíbrio não é fácil.

Precisamos das "válvulas de escape". Fazer um esporte que te faz bem, por exemplo. No meu caso a dança (jazz, contemporâneo, ballet clássico) e a yoga fazem parte da minha rotina. Recentemente comecei a jogar beach tenis, e estou adorando!

Já que moramos em SP, tento usufruir o que a cidade tem de bom. Mas fugir de São Paulo sempre que possível é essencial. Recarrego as energias quando estou perto do mar e da natureza.

Q. Você é uma mulher muito bonita, sem grandes  produções e maquiagem. Tem o que chamo de uma “beleza natural”. Como define seu estilo?

Muito obrigada pelo elogio! (Posso dizer o mesmo de você.)

Estilo? Acho essa uma pergunta difícil... Não sei me enquadrar em um padrão.

Gosto de peças fáceis e confortáveis. Tenho roupas e acessórios na maioria atemporais. Claro que existem tendências que ditam a moda e que mudam de tempos em tempos. A cintura alta ou baixa, saia mini, midi ou longa. Mas não sou uma pessoa que vai comprar uma roupa porque é a última coleção.

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Q. Sua linha de Eco Joias, que é um sucesso, parece refletir bastante esse estilo. Como foi que essa ideia aconteceu? E como é o seu processo criativo?

Durante o desenvolvimento da estante Ora Bolas (que citei anteriormente), enquanto fazia um mockup (uma maquete) com os tubos do rolo de papel higiênico, comecei a pensar em um novo projeto, e percebi outro material que eu poderia explorar e que é descartado diariamente em enorme quantidade.

Daí nasceu a ideia de fazer um bracelete e na sequência veio uma linha de Eco joias, que como você citou tem todo o seu ciclo - da matéria prima ao feitio - sustentável. São pessoas de baixa renda com quadros de doença mental que formam essa equipe incrível de artesãos. Além de montarem as peças que desenho, são eles também os responsáveis pelos maravilhosos papéis reciclados coloridos que juntos com o papelão do rolo de papel higiênico trouxeram cores e novas possibilidades para as peças.

Esse processo criativo é interessante, pode vir de forma mais espontânea, mas às vezes vem na identificação de um problema, oportunidade ou necessidade. Estudar, pesquisar, olhar em volta, buscar referências, fazer associações, imaginar, buscar inovação, são ferramentas que ajudam o processo criativo a fluir de forma orgânica.

Observar a natureza é uma ótima maneira de se inspirar. Você conhece a história do engenheiro Suíço que em 1948 voltou de uma caminhada com sua roupa e o pelo do seu cachorro cheios de carrapichos? Foi pesquisando como eles conseguiam se agarrar a qualquer superfície peluda que ele inventou o velcro.

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Q. Tudo tem momento certo para acontecer. Assim foi com sua linha de móveis para crianças?

Sim! Nesse caso o "empurrão" foi realmente a necessidade que tive dentro de casa, meu "cliente" era meu filho, na ocasião com 2 anos. Foi quando fiz o conjunto Vira e mexe, que é um mobiliário muiltifuncional; dois modelos que podem ser usados juntos ou individualmente.

Comecei a observar algumas as fases e desafios das crianças. O Deco começou a querer participar de atividades na cozinha, pensei então em uma torre de aprendizagem, onde uma criança pode ajudar e participar de atividades com adultos com autonomia e de forma segura. A partir daí o desafio foi tornar essa peça mais versátil, e assim, brincando com as alturas e apoio, ela funciona ora como torre, ora cadeirão, ora cadeira. Para compor com a peça maior, as peças menores podem ter função de cadeira, além de mesa, de degrau, de banco.

Ele usa desde então diariamente o Vira e mexe e todas as suas funções.

Além disso os materiais utilizados são sustentáveis e de baixo impacto ambiental - compensado de madeira de reflorestamento e  Laminado PET (um revestimento composto basicamente por matérias primas recicladas, cada chapa de Laminado PET retira do meio ambiente 40 garrafas de PET de 2 litros.)

A cama do Deco também foi projeto da mamãe…

A partir daí fui convidada a desenhar uma linha de móveis em parceria com o escritório de arquitetura de duas amigas. Algumas estão no "forno". Já já teremos novidades!