Porque me conscientizar sobre consumo foi melhor do que quando fiquei um ano sem compras

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Logo quando entrei na faculdade eu comentei com meu psicologo que gostaria de ficar sem comer chocolate na quaresma, o período de quarenta dias entre o carnaval e a páscoa no qual nós católicos costumamos fazer sacrifícios. Lembro-me até hoje a forma como ele me olhou e disse: "Acho que você não deveria fazer isso” e então enumerou possíveis razões para que eu não realizasse tão proeza. Óbvio que cinco anos depois eu fiz e não, não foi nada bom. Fiquei quarenta dias sem chocolate e sem doce, que resultou em dias de nervosismo, muita coca-cola zero e a famosa frase: “Eu deveria ter ouvido o q ele me disse”.

As razões do chocolate eram simples: (1) eu tenho prazer em comer chocolate, é algo maravilhoso! (2) libera endorfina, que nos deixa feliz e aparentemente tem até o poder de nos fazer sentir uma paixãozinha (3) chocolate ajuda a abaixar a ansiedade por conta da serotonina (aliás, minha nutri comentou isso ontem comigo. Comer diariamente 10g de chocolate 70% ajuda muito quanto à redução da ansiedade) (4) Tudo que é interrompido de forma brusca nos faz mal. Não devemos nunca cortar uma coisa da nossa vida da noite pro dia, o ideal é você ir diminuindo aos poucos. Assim como para ganhar um hábito devemos começar aos poucos, deixar algo de lado também deve ser feito de forma gradual. (5) chocolate é chocolate, precisa de outra razão?

Nada que é feito de forma brusca e abrupta faz bem. E eu confesso que sou dessas que tem momentos nos quais precisa de algo que funcione como um rompante e isso me levou a fazer 3 coisas que me marcaram: Ficar sem chocolates e doces por 40 dias (e caso você se pergunte eu não emagreci, nem isso), fazer voluntariado na Índia e ficar um ano sem comprar roupas ou maquiagens porque eu achava que tinha coisa demais e fazer um detox seria uma ótima opção, ledo engano.

Na Índia, que foi sim uma experiência transformadora e eu não me arrependo de nenhum segundo dela, tive a chance de conhecer Cheryl Strayed, a autora de Wild (Livre, em português) e que acabou virando filme um tempo depois. Cheryl passa por um período no qual ela resolve fazer uma jornada pela PCT (Pacific Coast Trail) e em algum momento ela fala que tudo que ela precisava estava numa mochila. 

Eu não consigo fazer uma mochila nem para passar o final de semana na casa dos meus pais que é no estado vizinho, em compensação, eu levo uma mala de mão e uma mochila para os Estados Unidos e volto com a mesma mala de mão e mochila. Ou seja: acredito no equilíbrio de certas coisas. Nunca fui uma consumista mas ficar um ano sem comprar me mostrou que eu, de certo modo, precisa rever algumas coisas. 

Quando eu morava com meus pais e meu poder aquisitivo era ligado diretamente à eles, eu não tinha excessos. Vim de uma família super equilibrada. Meu pai tem um guarda roupa muito parecido com o do Steve Jobs - no quesito uniforme - eu o conheço há quase 30 anos e nunca uma vi uma foto na qual ele saísse de seu padrão… Sabe a pessoa q usa o mesmo modelo de tênis e de sapato? A mesma marca de camisa? Este é o meu pai. E nunca vou esquecer de que quando eu entrei na faculdade ele me sugeriu: "Filha, seja firme ao seu estilo, vc vai economizar até tempo”. Acontece que eu não ia ouvir o meu pai assim como eu não ouvi o meu psicólogo. 

Mamãe, ao contrário, é a rainha das estampas, apesar de possuir uma coleção de clássicos e vintages, ela é super adepta de LBD nos eventos sociais. Mamãe, apesar de ser meu oposto - o máximo de estampa que eu uso são listras e de preferência em P&B, sempre me ensinou a ter o básico no guarda roupa e comprar roupas especiais para eventos especiais. Então, eu vivia com um armário capsula (quem dera conhecer esse termos quando eu era adolescente) que passou por várias transformações, como a fase rosa aos 13, seguido da fase preta, branca e vermelha aos 15, até eu conseguir entender meu estilo com os livros da Nina Garcia logo ao entrar na faculdade. 

Como eu aprendi que deveria ter um básico para o dia-a-dia e a liberdade de comprar “roupa nova para sair” a cada convite de evento, chegou um momento no qual eu me deparei com o meu guarda roupa e eu tinha mais “roupa de sair” do que roupa de dia a dia. Eu nunca fui dessas de olhou o guarda roupa e pensou: “Não tenho roupa pra sair”, comigo sempre foi o contrário. E como eu era da secretaria jovem do Grêmio de Letras da minha cidade, com frequência eu ia à coquetéis e lançamentos de livros, logo quando mudei para a faculdade e entrei na fase das baladas eu tinha muito mais vestido de tecido do que blusas de paête. Eu precisava de ajuda, foi assim que conheci Nina.

O primeiro livro que comprei foi o "As 100+”, no qual ela discorre sobre todas as 100 peças que uma mulher deve ter. Esse eu considerei um livro universal, e foi a partir dele que comecei a comprar uma peça aqui ou uma outra ali. Lembro que a primeira peça que comprei foi uma camisa branca (e não parei mais, hoje tenho várias no guarda roupa, é minha peça preferida). Um dos conselhos memoráveis de Nina em seus livros, e que eu não esqueço é: “se você não se vir usando essa peça em X anos, então ela não vale o investimento”, no dia que eu li essa frase em 2010 eu comprei uma saia que está comigo até hoje, e olha, fazendo o uso dessa mesma regra eu parei de comprar o que eu não me vejo usando por um período maior que uma estação. 

Se me perguntarem: "Ah, mas você não usa algo que está em alta?” Uso sim, mas ao comprar uma peça eu sempre penso que ela tem que combinar mais comigo do que com o que está em alta. Acontece que essa curadoria que Nina promoveu no meu guarda roupa me levou a uma larga seleção de roupas. No primeiro intercâmbio que fiz, e tive contato especial com as fast fashion, engordei ainda mais a seleção, no entanto passei por uma experiência transformadora. Estava na China, prestes a completar 21 anos, quando fui impactada no Silk Market - famoso mercado em Pequim - com a avalanche de cópias de bolsas de marca e roupas de estilistas famosos. Ver birkins, 2.55, Louboutins  e outras “it-itens” expostos em quantidades absurdas me fez questionar tudo pela primeira vez. Mas a decisão de eliminar as compras da rotina só veio anos mais tarde depois de uma temporada na China e outra em Cuba quando eu falei: “Pra que tudo isso se tem quem viva com tão pouco?!”

Foi no final do mestrado, eu entrei direto após a faculdade, que decidi ficar um ano sem comprar porque considerei que tinha peças demais (algumas até com etiquetas) e confesso que eu só queria que alguém tivesse falado: "Acho que você não deveria fazer isso”. Talvez ter tido consciência do consumo naquele momento teria sido muito melhor do que simplesmente optar por parar. Eu ainda herdo muita roupa das minhas tias, que por serem consumistas acabam mandando muitas peças com etiqueta porque nunca usaram mas nem isso conseguiu me alertar à época. No meio de 2015, eu tinha ganhado muita coisa, então acho que isso ajudou a inflar meu closet a ponto de eu achar que tinha coisa demais, e não era nem porque eu tinha comprado e sim porque tinha ganhado. O período sem compras começou em setembro de 2015, após voltar de um intercâmbio nos EUA e terminou em Agosto do ano seguinte, quando eu me rendi à uma peça na Zara, me lembro de olhar e falar: Não resisto, é isso! Recordo-me de ter ganhado neste período 5 peças de roupa da minha mãe pq eu precisava mudar minha imagem de aluna para algo "mais profissional".

Não, não foi nada fácil mas foi ótimo. Acabei com alguns batons e descobri que eu só precisava de meia dúzia na penteadeira ao invés de vinte ou trinta… Descobri que eu tinha muitas cores iguais de diferentes marcas. Entendi o que eu realmente gostava de usar e o que ficava bem em mim. Comecei a observar mais os estilos a fim de descobrir meu próprio. Entendi que por mais que eu tente eu sempre vou ter "roupas de sair” separadas de roupas de dia-a-dia e que sim, elas ocupam muito espaço assim como os casacos de inverno e não são usadas tanto quanto.

Só que quando o período acabou eu me vi comprando 8 pares de sapato em dois meses, porque eu precisava de sapatos novos. Comprei roupas do dia a dia mas continuei usando as antigas. Apesar do aprendizado eu ainda precisava me conscientizar sobre algumas escolhas e aprender a mais difícil de todas as tarefas: o desapego. Descobri que se eu acumulava roupas era porque, em parte, eu não conseguia me desapegar de algumas roupas que ainda estavam ali apenas por apego à uma memória ou momento. Ah, e o pior: eu ainda mantinha um segundo guarda roupa na casa dos meus pais. As famosas peças do tipo que a gente para um dia quando for usar, sabe?
Passado um tempo dessa experiência eu resolvi tentar de novo. No final do ano passado comecei a ensaiar ficar um ano sem comprar… mas eu entendia que não dava para ficar sem comprar se eu não revisasse tudo que eu tinha antes e as motivações por trás daquilo. Em dezembro fiz a famosa faxina de final de ano, na qual eu estava motivada em renovar não só as energias mas também entender o tipo de pessoa e profissional que eu queria ser. Há um tempo atrás circulou uma tirinha nas redes sociais que dizia: "Vista-se para o emprego que você quer ter” e na ilustração uma pessoa ia trabalhar num escritório vestida de Batman. Por meses fiz um levantamento das pessoas que eu admirava profissionalmente e em questões de estilo. Isso resultou num board muito legal no qual eu entendi o que eu realmente queria. Brinco que meu questionamento agora, baseado na minha referência mór, é o seguinte: “O que Georgina Clios usaria?” (Georgina é uma curadora na série Riviera, e pra mim ela é uma versão contemporânea e mais clean de Grace Kelly). 

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Dois meses e dois guarda roupas depois reduzi minhas peças em 40%. O Guarda roupa na casa dos meus pais ficou reduzido à 3 vestidos e dois pijamas. O da minha casa só contém peças que eu realmente uso e gosto. Quando comecei em janeiro o processo de ficar sem compras eu li o livro Detox de Compras, escrito pela autora do Finanças Femininas Carol Rhuman, no qual ela comentava sobre o período que ficou sem comprar. No universo do livro ela discute não apenas como o consumismo tem impede de atingir uma meta maior mas também aspectos como o consumo consciente e sustentável. Considero o livro algo transformador, desses que você senta e lê numa tarde mas confesso que se eu não tivesse passado pela experiência antes eu não teria lido da mesma forma.

Comecei o processo de ficar sem comprar, que a própria autora considera radical e diz que não é pra todo mundo, mas logo comprei um vestido maravilhoso que eu estava de olho e na semana passada uma saia cuja estampa xadrez eu estava namorando há tempos. Entretanto, revi minha forma de comprar, resgatei o que Nina me disse anos antes mas que eu ainda não tinha parado para ouvir ao certo. Agora me questiono sempre: "Eu preciso mesmo disso? Porque estou fazendo essa compra?”. Se a peça precisa de inúmeros ajustes e não tem na minha numeração eu não compro só pra realizar um capricho e depois mando arrumar. Penso muito naquele conselho do: “Eu me vejo usando isso daqui a X anos?”. Óbvio que as vezes não resisto à uma coisa ou outra… mas a mudança de comportamento que isso causou é reconhecível. Não compro mais por impulso, passei a usar tudo que eu tenho, quebrando até mesmo a barreira existente entre a “roupa de sair e a roupa de dia-a-dia“. 

Uma amiga da minha mãe uma vez comentou que o quando o filho foi morar sozinho ele disse que seus prazeres eram: comer só parte de cima da melancia e abrir a geladeira pra pensar, coisas que em casa a mãe o vigiava. Então, ela me perguntou uma vez: “O que você mais gosta de fazer morando sozinha?”  e eu respondi: “Compras! Qualquer uma, seja no mercado ou no shopping, poder sair para comprar as coisas sozinha é muito legal!”. Não sei se a minha mãe e ela gostaram da resposta, mas eu nunca vou esquecer como foi uma experiência muito legal esse primeiro contato de comprar algo sozinha, no entanto, digo que hoje ele continua sendo muito legal só que mais consciente e o melhor de tudo é ver como essa mudança, de comportamento e estilo, está sendo reconhecida e elogiada.