Renata Perlman talked daily fashion and business with the founder of Prêt a Louer, Mariana Marcato

mariana-marcato-pret-louer.jpg

Quando conheci a Mariana, num curso de Consultoria de Imagem, não demorou muito para notar a mulher cheia de estilo que é. Com o decorrer dos dias, conheci também o lado profissional e apaixonante com que se dedica ao seu business Prêt à Louer, um charmoso ateliê de vestidos e acessórios de luxo para aluguel, localizado no 13º andar de um prédio na Avenida Faria Lima, em São Paulo.

Mariana foi introduzida à moda já muito cedo pela sua mãe. “Ela sempre apreciou e consumiu boas roupas, boas bolsas e acessórios”, contou Mariana que, quando criança, era sua grande companheira, frequentando juntas lojas de grandes marcas. Hoje, muitas das peças, guardadas há mais de 40 anos pela sua mãe, são usadas por Mariana. Conta ainda que, muito jovem, sua mãe costurava e teve uma loja em Presidente Prudente. Essas foram suas primeiras referências.

Mariana seguiu sua paixão, cursando faculdade de moda, que infelizmente não correspondeu às suas expectativas. Acabou chegando à faculdade de direito.

Foi um período morando em Londres que fez com que ela voltasse decidida a resgatar sua verdadeira vocação e investisse na moda.

Percebendo um movimento interessante de comportamento de consumo, enxergou a oportunidade no mercado de aluguel de artigos de luxo. “O Brasil ainda tem muito o que aprender e muito pra fazer, quando a gente vê como esse mercado de aluguel está lá fora”, diz Mariana.

Mariana-Marcato-Lolla.jpg


Q. Mari, ninguém precisa conhecê-la tão bem pra bater o olho em você e perceber que é uma mulher de muita personalidade. Como definiria o seu estilo?

Bem geminiana! Rs. Acredito que tenho vários estilos ao mesmo tempo e que a forma como me visto diz muito a respeito de como eu acordei, como me sinto e o que quero transmitir naquele dia.

Mas se eu tivesse que indicar uma definição específica, diria moderna/dramática, porque adoro colocar peças-chave (que podem variar de sapatos, bolsas a brincos e pulseiras), cheias de design e, se possível, exclusivas, para arrematar qualquer produção.

Q. Estilo pode mudar ao longo do tempo. Sempre falo isso para as minhas clientes no processo da consultoria de imagem e estilo. Mas, às vezes, precisamos fazer um retorno ao passado para buscar algumas explicações e entender melhor o presente. Como foi pra você? Algo a impactou para ter o estilo que tem hoje?

Sem nenhuma dúvida, minha mãe. De fato o meu estilo também vem mudando com o decorrer do tempo e acredito que a idade e profissão foram bem importantes nessas mudanças, mas o amor por peças ousadas e cheias de estilo veio de tudo o que aprendi com ela, que aos 65 anos, continua ousando e arrasando!


Q. Para uma mulher que adora moda e abusa dela, parece natural que sua vida profissional esteja nesse universo. Como surgiu a ideia de montar a Prêt à Louer?

Eu sempre quis trabalhar com moda, mas tinha muita dificuldade em saber onde me encaixaria. Quando de fato assumi que era o que eu queria, passei a estudar as possibilidades de mercado e me deparei com a economia colaborativa, que ainda tem muito para crescer no Brasil e no mundo e portanto, era um espaço ainda pouco explorado na moda.

Além disso, a Prêt à Louer também me ajuda diariamente a satisfazer algo que eu amo, que é o “ensinar” a moda, permitindo com que todo mundo possa ter acesso as marcas incríveis com as quais trabalhamos, entendendo as suas histórias e tudo o que vem por trás delas, tornando-as tão icônicas.


Q. Você e sua sócia Isabela (outra mulher super charmosa) são muito amigas. Como é essa relação no trabalho?

Desde o princípio nós aprendemos a separar as duas relações e sempre priorizamos a empresa frente às nossas vontades pessoais. Nos respeitamos muito e criamos mecanismos para tornar a relação justa e saudável. Além disso, somos muito diferentes como empresárias e por isso nos completamos; onde eu tenho deficiências, ela me completa e vice-versa.


Q. O fato de você “respirar” moda no dia-a-dia a influencia na hora de se vestir pela manhã? Lembro de quando fizemos um curso de consultoria juntas e você passou um dia inteiro numa bota chiquérrima com saltão. Pensei “como ela aguenta?” Rs

Eu realmente me visto a partir do meu “mood” do dia, mas tenho alguns looks pré-montados no armário para quando estou numa loucura e não quero pensar muito em roupa. O salto alto é algo que eu AMO desde criança quando roubava os sapatos da minha mãe para andar pela casa, mas trabalhar com moda me permite ousar mais e vestir o que eu realmente tiver vontade.


Q. Você acha que sua imagem impacta o seu negócio?

Ainda tenho dúvidas a respeito disso. Eu não acho que o meu estilo pessoal seja tão comercial.

Q. As mulheres têm diferentes estilos. É um universo amplo e complexo, não é verdade? Quais são os critérios da Prêt à Louer para escolher os vestidos do seu acervo? Existe algum estilo mais procurado no atelier?

Desde o início nós misturamos muito todos os estilos e buscamos formar um acervo que atendesse os mais variados gostos.

Hoje, com muito orgulho, posso dizer que conseguimos, já que atendemos desde meninas de 14 anos, até senhoras de 80, com total tranquilidade.

De qualquer forma, sempre que surge uma nova tendência, nós também prontamente escolhemos um look que a represente.

E no que diz respeito ao que é mais procurado, eu não diria que há um estilo específico, mas sim um detalhe: decotes! Principalmente nas costas.

Q. Existem aquelas mulheres que sabem exatamente o que querem, outras que precisam muito de orientação. Como vocês identificam a necessidade e o estilo de cada uma? Como é o processo?

Sempre temos uma conversa com a cliente logo que ela chega. Prontamente já reconhecemos quem sabe o que está buscando e quem precisará de auxilio.

Temos muito conhecimento no que diz respeito aos tipos de festas, locais onde vão acontecer, horários e demais peculiaridades para podermos direcionar sobre o que é apropriado para cada ocasião.

De qualquer maneira, depois da conversa, a cliente faz uma pré-seleção dos vestidos no Ipad, o que nos permite entender um pouquinho do que ela curte ou não; mas não nos limitamos a essas escolhas, já que também sabemos o que veste melhor em cada tipo de corpo e conhecemos tão bem os vestidos que sabemos que alguns, quando vistos em modelos, não chamam atenção mas viram os queridinhos depois de provados.

Temos clientes que acabamos ajudando até na escolha da cor do esmalte, penteado e maquiagem. É um processo delicioso, porque até mesmo aquelas mulheres sem vaidade, querem estar lindas e elegantes em dias de festa e é incrível acompanhar essa transformação.

Q. A Prêt à Louer incentiva o consumo consciente. O aluguel de vestidos de festa, que obviamente usamos pouquíssimas vezes, é uma ideia que faz todo sentido. Fale um pouco mais sobre essa filosofia.

O consumo desenfreado perdeu o sentido e existe uma mudança de “mindset” geral, em que as pessoas estão se preocupando mais em viver experiências do que em consumir coisas. É possível ver essa transformação em todas as áreas das nossas vidas, tanto que uber e airbnb por exemplo, se tornaram aplicativos tão fortes.

Mas no que diz respeito a moda, é possível ir ainda mais longe, já que ela é o segundo mercado mais poluente do mundo, perdendo apenas para a indústria do petróleo e, por isso, a ideia de comprar roupas praticamente descartáveis, que duram (se muito) uma coleção, também está perdendo espaço, enquanto o compartilhamento de roupas está ganhando.

Q. E como é a sua relação com o consumo e com seu armário?

Desde que abri a Prêt à Louer estou em constante mudança e sinto uma dualidade interna, já que como amante da moda e com estilo ousado que adora tendências, tenho muitos desejos de consumo, ao mesmo tempo que o consumo desenfreado e o conhecimento de que, infelizmente, ainda há marcas que fabricam produtos com mão de obra que vive em situações análogas à escravidão, me incomodam muito.

Diante disso, tomei algumas atitudes:

- evito comprar roupas de marcas “fast fashion” e se por um acaso acabo querendo algo, sempre olho na etiqueta onde foi fabricado e não compro se tiver sido feita em determinadmos países.

- sempre me preocupo em como minhas roupas serão reaproveitadas quando faço doações, visando impedir o descarte indevido de tecido.

- se vou comprar uma roupa, tenho que obrigatoriamente pensar em no mínimo dois looks diferentes para usa-la e, portanto, não compro mais looks para uma ocasião específica apenas.

- descobri que o menos, é mais! Prefiro investir em peças caras de marcas que confio na fabricação e que sei serão eternas, ao invés de comprar diversas roupas baratas.

- recrio roupas. Aproveito peças que já tenho e levo à costureira para fazer modificações e voltar a usar como se fosse uma roupa nova. São vestidos que viram saias, blusas fechadas que se tornam decotadas e assim por diante.

Q. Adorei a frase destacada no site da Prêt à Louer “Queremos mostrar que é possível o experimentar coexistir com o possuir”. Você acha que as pessoas estão acompanhando esse movimento? Como enxerga a evolução do comportamento do consumo?

Como eu disse anteriormente, trata-se de uma mudança de “mindset”. As pessoas estão mais preocupadas com sua alimentação, com espiritualidade, com viver mais e melhor. Existe uma busca muito forte por qualidade de vida e experiências memoráveis e a gente acredita que permitir que as mulheres vistam roupas que desejam para curtir uma ocasião, sem a necessidade de comprar aquele look, faz total parte desse movimento.  

Q. E qual é o  impacto desse comportamento na indústria da moda e no seu próprio negócio?

A indústria da moda terá de se reinventar. Passamos por uma fase em que estava quase impossível acompanhar as tendências, era tudo tão rápido que se tornou descartável.

Com essas mudanças no comportamento dos consumidores, as pessoas voltaram a curtir, por exemplo, o que é feito com exclusividade, e o que é feito por artesãos e também por isso, o sob medida voltou com tanta força.

No meu próprio negócio eu acredito que a tendência é só melhorar, porque o meu mercado não é o mesmo de 3 anos atrás quando abri e sofríamos muito preconceitos tanto de clientes como de fornecedores e certamente não será o mesmo em um ano, já que as pessoas estão se acostumando com essa ideia e deixando de lado o “preciso ter para mostrar que posso”.