Sobre Amizade e Estampas. Uma tarde no Atelier da Artista Plástica Marina Saleme.

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COLLABORATION X MARINA SALEME ESTAMPARIA

Mês passado passei uma tarde deliciosamente confortável com a mãe da minha melhor amiga. Minha melhor amiga, Ana Maria, mora em NY há anos, nos vemos menos que uma vez por ano e temos fases em que a gente se fala todos os dias e outras que podemos ficar semanas nos abastecendo da vida uma da outra por Stories do Instagram. Não importa, she feels like home. Minha companheira de cartas épicamente decoradas da 7ª série, minha vizinha de rua do Jardins e minha eterna confidente quando eu preciso ser uma bitch. She gets me.

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A mãe dela, Marina Saleme, é uma artista plástica hypada, conceituada e consolidada, com obras expansivas como sua presença. Me lembro dela chegando na casa da Ana Maria quando eu passava as tardes por lá depois da escola, falando alto, dando risada e fazendo comentários que deixavam a gente sem graça tamanha a nossa babaquice adolescente.

Há alguns anos a Marina lançou um novo gig, a Marina Saleme Estamparia. Observando seu comportamento de consumo de roupas e contribuindo para a estatística de que mulheres acabam criando negócios para resolver os próprios problemas, Marina começou a criar as próprias estampas e aplicá-las em seda pura. Algo nas estampas digitais a incomodam, atribuo isso obviamente a sua profissão de artista plástica, onde tudo o canvas é um só. Não dá pra apagar.

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Como artista plástica que passa seus dias no charmoso ateliê em uma casa no Jardins, ela vive de jeans e camiseta, ajoelhada no chão, em cima da escada e suja de tinta. Mas sempre foi uma amante das estampas. Trazia na mala peças Gucci e Dolce e Gabbana que se apaixonava nas viagens, já que nunca encontrava no Brasil o que queria. Fora as peças que ela herdou da mãe que faleceu há dez anos, tipo blusas de seda do Pucci dos anos 70 que formam praticamente uma coleção. "Até que um dia, eu tava andando no parque em NY com a Ana Maria e vi uma mulher com uma capa toda estampada, eu fiquei doida. Falei pra Ana Maria - preciso parar essa mulher pra saber da onde é. Foi aí que eu parei e pensei. Porque eu não faço pra mim as estampas que eu amo? Eu vou desenhar e faço a minha roupa. Eu fui no grupo Rosset, que eu acho o melhor para estamparia em seda, e comecei a fazer. As minhas irmãs começaram a usar, as amigas da minhas irmãs começaram a usar, de 20m comecei a fazer 40m e foi indo. E há 3 anos atrás transformei esse pedaço do ateliê em um show-room. Hoje eu vendo aqui, na Dona Coisa no Rio de Janeiro, na Pinga..."

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Marina Saleme no casamento da Ana Maria em NY

Marina Saleme no casamento da Ana Maria em NY

No dia que fui ao atelier Marina tava vestindo um jeans boyfriend, uma camiseta cinza e uma Birkenstock. Cabelo preso e cara lavada. Usar as estampas e se produzir mais é quase um acontecimento, uma ocasião, que ela gosta. "Eu fico feliz de ter essas roupas a disposição. Eu uso muito kimono, levo em viagem e não ocupa espaço. Posso usar de várias formas. No casamento da minha filha em NY em usei esse vestido, com uma sandália de veludo Dolce e Gabbana e um brincão. E hoje eu uso na praia com uma Havaianas. Eu gosto de roupa assim, não gosto de roupa para ocasião"

A estamparia não tem coleção, as estampas se repetem ou não, depende da demanda e da criatividade. Ela pode sentar pra desenhar na frente da TV quando o Marcos (marido) estiver vendo uma série meio chata. Ela deixa um estojo com lápis de cor, canetinha, giz de cera e um bloco de papel A4 por perto. E as vezes sai um leque, um xadrez, que depois vira um estampa. O xadrez foi fruto de uma conversa no telefone.

Em anos que ela faz muitas exposições, quando o trabalho oficial exige muito, Marina não cria estampas e tá tudo bem. Não existe uma cobrança e não é isso que ela quer. As estampas pra ela são um processo lúdico, mas não menos sério. Diversos artistas plásticos flertaram com estamparia. Ela cita uma exposição da artista plástica francesa Sonia Delaunay que ocupou um andar inteiro da Tate Gallery em 2015, e as estampas da Leda Catunda para a Fit. "Estamparia é uma coisa séria, mas ela é mais do design, do design têxtil. Que não tem a mesma densidade, a preocupação e a mesma angústia de um trabalho de arte. São coisas completamente diferentes. O meu pedaço nas artes plásticas é desenho e pintura. Eu tenho essa habilidade. Os artistas não tem que ter habilidade. Nas artes plásticas você não está condicionado a ter uma habilidade e sim a ter um pensamento. Como artista plástica que faz pintura e desenho, eu tenho também a habilidade e enfim... eu tenho um desenho fácil, consigo fazer o que eu quero e tenho uma percepção de cor apurada porque eu trabalho com isso, então tem uma vantagem grande" (para criar as estampas).

Viciada em Coca-Cola Zero como eu, descolada e despretensiosamente chique, terminamos nossa conversa com a Marina planejando a próxima viagem para a Disney onde vai encontrar a Ana Maria e os netos e o sonho de criar estampas para a Gucci. São os contrastes de uma mente brilhantemente colorida.  

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