Sobre os Pedidos que Fazemos

  Image Credits: nekopie

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Visitei Roma pela primeira vez em 2006. Enquanto minha mãe ansiava em ver o Vaticano e receber a benção papal, eu ansiava por lugares onde poderia visitar a história, tomar sorvetes gigantes, comer muita massa e alugar uma lambreta vermelha, nem que fosse para tirar uma foto, afinal eu tinha recém completado 15 anos e não possuía habilitação.

Antes de chegarmos lá havíamos passado por lugares belíssimos na Toscana e eu estava muitíssimo encantada com aquela parte da Itália.... Porém, o medo que colocaram em mim era tanto que não tinha coragem de me sentir bem na nova cidade. Todos falavam dos assaltos, fiquei assustada (tonta, saí do Rio para ter medo em Roma...).

Nossa chegada em Roma não impressionou, estava tão cansada dos outros passeios que dormi. Minha mãe tentou me acordar inúmeras vezes, em vão. Somente quando foi pegar a câmera na minha bolsa que eu acordei, e dei de cara com nada mais nada menos que o anfiteatro de Flavio, o Coliseu. Realmente, ainda parecia que eu estava dormindo. Pude então dar vida ao tão esperado momento! Era como ter meu próprio Roman Holliday... até encontrei algumas lambretas, mas nenhuma vermelha, rs.

Almocei em cantinas de tolhas quadriculadas, me emocionei ao caminhar pela Basílica de São Pedro, vi pores-do-sol maravilhosos e inesquecíveis... Joguei 3 moedinhas na fontana de trevi, me perdi em meio de piazzas na noite romana. Fui ao Pantheon que pouco tempo antes havia pintado nas minha aula de pintura, e pouco depois estudei cada detalhe na faculdade. Conheci o charme italiano. Vivi o cotidiano deles e conheci um povo feliz. Medo? Não. O que passei a sentir naquele lugar no momento que pisei lá foi qualquer coisa, menos isso. Roma é um lugar como nos filmes. Divertido, alegre e apaixonante!

Se tem uma coisa que Roma é capaz de fazer é nos libertar de alguns medos, como o medo da comida, uma vez que experimentamos aquela comida italiana/mediterrânea nos encontramos num pedaço do paraíso, não é mesmo? Outra possibilidade que ela nos apresenta são as chances de pedir algo.. desejar algo sem medo.

Basta ir à Europa que você começa a contabilizar as possibilidades de desejos, especialmente na Itália. Cada igreja nova a ser visitada lhe confere 3 desejos, cada fonte lhe concede mais um a cada moeda jogada, e em cada lugar vc descobre uma nova possibilidade de pedir algo. Não bastasse a Europa ter os países e cenários nos quais se originaram os contos de fadas, ela também tem esses detalhes que acrescentam graça à experiência da viagem. Geralmente você nunca está preparado quando alguém lhe fala: "pode fazer um pedido”, quem dirá três em cada igreja nova visitada.

Então existe aquele clichê das fadas madrinhas, gênios ou da Whoopi, que apesar de ser clichê eu acho maravilhoso, “Você pode não saber o que quer mas seu coração sabe”. E aí, até que ponto a racionalidade ultrapassa os desejos que carregamos dentro do coração?

O ano de 2016 foi muito difícil para mim, pessoal e profissionalmente falando, coincidentemente foi um ano sem viagens, no entanto na hora do parabéns e de assoprar as velhinhas, eu não conseguia pensar em um pedido, me deu um branco... No entanto ouvi uma voz me dizendo: “Você não pode pedir pelo que você já tem, então agradeça”. E de todo modo fui grata. Grata por cada pedido já feito e não realizado, grata por cada pedido realizado, grata pelos pedidos desconhecidos e pelas ainda não concedidos. O final de 2016 foi uma feliz surpresa, em meio à confusão.

E eu me pergunto hoje, em meados de 2018, o que eu seria capaz de pedir naquelas igrejas italianas... ou talvez em Girona, na Espanha, ou em qualquer outro lugar. Tivemos no mês de abril a Lua Rosa, e em todas as redes sociais eu vi comentários sobre pedidos e agradecimentos, e fotos deslumbrantes da lua em diversos pontos turísticos. E aí veio o questionamento ... Tinha dois pedidos em mente, dois bem certeiros, mas que de certo modo já estão para acontecer, mas isso me fez pensar: o que mais eu poderia querer?

Não é como se o gênio da lâmpada fosse aparecer me dando a possibilidade de conhecer o mundo todo ou receber 1 milhão de dólares. O questionamento que tenho recentemente é: jogamos uma moeda na Fontana de Trevi para voltar, mas e quantas outras jogamos pedindo N coisas? Quantas vezes repetimos os três pedidos nas igrejas por não saber o que realmente queremos? Será que um único pedido não vale mais que 3 repetidos inúmeras vezes?

Será se nossos pedidos estão em consonância com o nosso coração ou nós os fazemos por vaidade?

No primeiro ano da faculdade me deram a tarefa de escrever uma carta para que eu lesse no último ano. Na verdade, recordo-me de que deveria escrever “tudo que eu esperava que acontecesse”. Escrevi desejos, escrevi sobre fazer intercâmbio em Paris. Escrevi sobre descobertas e outras coisas, sobre erros e acertos, sobre aprendizados. Recordo-me de seis meses depois começar a estudar francês, e no ano q eu ia me aplicar pro intercâmbio, eles anunciaram o fim do acordo com Paris... meus professores indicaram a Espanha e eu veementemente neguei a oportunidade. Não me inscrevi. Não me arrependo. No entanto fui laureada com tantas outras oportunidades... fiz intercâmbio na China, ainda na faculdade publiquei num congresso em Cuba, e dias depois da última aula embarquei rumo à Índia. Peguei a carta uma semana depois de chegar de Jaipur. Quando a li não conseguia distinguir os acontecimentos. Até hoje me pergunto: Será que eu trocaria a vida como ela foi pelos desejos que escrevi? Acredito que não.

Muitos aprendizados estão por vir. Agora desejo com mais calma. Seja para a estrela cadente no céu, na igreja barroca italiana ou até mesmo na fonte no palácio de verão... não importa. Viajar faz com que conhecemos mais de nós mesmos, nos melhora, e com isso a consciência acerca dos nossos desejos também... sabe quando coincidentemente desejamos algo e isso acontece em seguida? Não nos faz repensar tudo? E se fizermos isso antes de jogar a moedinha? As vezes o nosso destino não é Paris, pode ser Ubud, as Ilhas Maurício, as Maldivas ou até mesmo São Francisco. O interessante é que a gente nunca sabe qual a próxima parada.