Sobre trabalho, filhos e escolhas

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Quando eu tava grávida do Benjamin em 2014, minha empresa ia super bem, tinha acabado de encerrar um projeto grande com a marca de moda mais cool do Brasil, a NK Store e estava começando outro. Quando veio a pior notícia da minha vida no primeiro morfológico - contei tudo sobre o problema do Ben nesse post. Isso afetou tanto meu trabalho que dei uma pausa necessária por alguns meses.

Lembro que quando eu contei que tava grávida pra uma cliente minha ela disse algo como: "Eu trabalhava até o último dia, saía daqui direto pro hospital". Aquilo ficou na minha cabeça como meu maior foco, eu também queria trabalhar até o último dia. Não queria virar uma grávida monotema e não queria perder a única coisa que era só minha. O resto a gente ta sempre dividindo com alguém né? Óbvio que não deu certo.

Foi uma gravidez estranha. Depois que me conformei e esgotei minhas fontes de pesquisa sobre a doença do Benjamin e só me restava esperar pelo nascimento dele, fiquei meio sem ter o que fazer. Voltei pro trabalho mas de uma forma bem mais light e escolhi os meus clientes de acordo com o que estava acontecendo na minha vida. Ia ter que parar de trabalhar quando ele nascesse porque seriam meses de UTI que não tinha idéia de como seriam.

Dois dias antes dele nascer, me ligaram da LVMH para um entrevista. Era um cargo incrível, na Louis Vuitton, uma mega oportunidade que me faz pensar até hoje em como estaria a minha vida se eu tivesse ido. Eu já não podia mais sair e a conversa foi pelo telefone mesmo. Quando falei que tava grávida e tipo quase parindo, a conversa mudou totalmente. Quem me ligou foi uma mulher e ela foi super carinhosa, ficou surpresa pra caramba, me desejou tudo de lindo e desligou. Senti ali aquela oportunidade escapando da minha mão e eu totalmente inerte, sem poder fazer nada pra poder cuidar do meu filho.

Já o meu marido, voltou a trabalhar uns 3 dias depois que o Ben nasceu. Foi puxado pra caramba pra ele que se equilibrava entre os horários da UTI, o trabalho e dava um jeito de ir almoçar e jantar comigo no Einstein que é bem longe da nossa casa. Mas em nenhum momento foi necessário ele questionou o trabalho dele. Primeiro porque ele não pode, depois porque realmente não precisou. Mas e se eu também não pudesse? Nem estaria aqui falando sobre isso porque não teria opção, teria ido para a entrevista, não teria pausado meu trabalho e bola pra frente.

Mas um dia me peguei com uma pontinha de inveja dos homens. Se o cargo na LV fosse para um homem, ele não teria nem mencionado que a mulher estava grávida, porque talvez não seria relevante. E acho que não dá pra responsabilizar só o mundo corporativo pela desigualdade de gênero. No meu caso era ou ficar com meu filho na UTI pelo tempo necessário ou correr atrás da minha carreira. Nunca vou saber como seria ter ido, mas tenho certeza que me arrependeria para o resto da minha vida se eu não tivesse me dedicado ao meu filho como me dediquei e sei que isso contribuiu pra ele se recuperar tão bem e ignorar as estatísticas.

Outro dia li um texto no Huffington Post escrito por uma mulher que durante uma entrevista de emprego foi perguntado se ela tinha filhos. Ela interpretou como preconceito e machismo. Eu encaro como uma pergunta normal, que dá mais informação sobre aquela pessoa que estou a fim de contratar. Só acho que essa pergunta deveria se estender também ao homens, porque filho interfere na vida de todo mundo até certo. Mas na hora de uma decisão excludente, afeta sempre a vida de quem tem opção e normalmente quem tem a opção é a mulher. E isso vem lá de trás, lá do jeito que ela foi criada desde pequena, das oportunidades de estudo e trabalho. Acho que o mais importante aqui é dar as mesmas oportunidades aos filhos homens e mulheres (crianças de hoje) e fazer as mesmas perguntas aos homens e mulheres. Mas as respostas serão diferentes sempre, porque a base de tudo é diferente. São formas, cérebros e hormônios diferentes. O que a gente precisa é adaptar o ambiente e os resultados a maneira do homem e e da mulher de agir e não esperar as mesmas respostas e resultados se o agente é diferente.