Eu Tenho um Crush por Lugares, por uma Globetrotter

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Conheci um amigo por acaso na China, durante meu primeiro intercâmbio. Era verão, um dia super bonito, de céu claro e livre daquela névoa de poluição - o que foi atípico naquele ano em Pequim. Esse amigo, o primeiro cidadão do mundo que realmente conheci na vida, tem um timing incrível para me escrever e a frase de abertura que ele usa em todos os e-mails que me envia é sempre a mesma: “I hope the world is treating you well”.


Talvez essa expressão não seja tão estranha a você, inclusive a pergunta que origina tal frase é título de uma música do Elvis Presley (“How’s the world treating you?”). Hoje, enquanto ouvia meu iPod a caminho de casa, me deparei com essa música e me surpreendi com a sonoridade da pergunta, pensando pela primeira vez em como o mundo tem me tratado.


Eu sei que não posso acordar no Brasil com vontade de jantar em Paris, porque isso não seria possível nem se eu tivesse meu próprio jatinho. Existem os trâmites, os documentos que teriam que estar em dia e, se não bastasse toda a burocracia, existe a questão do tempo, não apenas o tempo de viagem mas também o fuso horário. Sendo assim, o mundo me mostra que eu não tenho como ter controle sobre tudo.


Se eu perco um voo, o mundo, ele me apresenta novos caminhos, me ensina a recalcular rotas e me mostra como existe um tempo certo para tudo na vida, pedindo calma e paciência, mas sempre dando algo maravilhoso em troca, como uma situação especial ou uma paisagem deslumbrante. Dessa forma ele me surpreende sempre, me fazendo enxergar o lado bom de tudo.


Ao me apresentar uma nova culinária ou um prato típico, mesmo que de algum lugar do meu próprio país, ele aguça a minha curiosidade e me permite reações diferenciadas... Nesse momento ele é como meu melhor amigo, aquele que me leva nos mais diversos restaurantes porque acha que precisa me apresentar coisas diferentes, mas que permite que eu possa ser eu mesma, seja reagindo com caretas quando eu não gosto da novidade ou comendo demais no caso de eu amar.


Ao aprender um novo idioma, ele me ensina sobre atenção e cuidado, quase como um ato de carinho e empatia com quem eu falo. Ao mesmo tempo, ele me mostra a importância que pode ter para o outro que falemos a mesma língua. Sendo assim, é gentil ao adicionar amabilidade aos meus dias e viagens.


Quando adentro um templo, diferente daqueles da minha religião, ele não me ensina apenas sobre rituais e arquiteturas, ele também me ensina sobre tolerância e respeito, assim como alguém que com toda atenção do mundo me ensina algumas coisas sobre sua historia, cultura e religião para melhor compreendê-lo, um ser de bom coração que sabe como o valor das trocas ajuda a fundamentar um relacionamento, seja qual for a natureza dele.

Acredito que quanto mais eu viajo, mais eu encontro as pessoas que estavam destinadas a passar pelo meu caminho e me ensinar algo novo para me tornar uma pessoa melhor. E apesar de deixar um pedacinho do meu coração por onde eu passo, os sentimentos que carrego comigo só aumentam seu tamanho. Dessa forma o mundo me ensina sobre o amor que cresce com a convivência, a felicidade que aumenta quando compartilhada e a alegria que vem com todas essas descobertas. Ao se revelar dessa forma, ele deixa todos os papéis para trás e se torna o meu crush. Quando me dei conta dessa reflexão, percebi que meu iPod já havia mudado a música novamente e a frase que ouço nos fones é “So why should we fear what travel brings?”, seria isso temer o amor pelo mundo e tudo que ele tem a nos oferecer? Sejamos felizes.