Women Behind The Brand: Maria Helena, da MH Handmade Memories.

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Conheci o trabalho da Maria Helena pelo Instagram de algumas amigas e aquilo falou mais alto comigo de um jeito especial. Ela faz álbuns. Acho que dentro das minhas culpas, uma delas é de nunca ter feito meu álbum de casamento e lá se vão quatro anos... e de não ter um álbum com fotos da nossa família. Mas o trabalho dela vai muito além do álbum. É leve, delicado, feminino e muito especial. É uma forma de fechar um momento muito legal da nossa vida, uma data, uma viagem, etc. Os álbuns são de linho ou de couro e totalmente personalizáveis. Maria Helena é uma artista, calma e doce. Carioca morando em São Paulo, largou o direito para ser fine crafter, mas daquele jeito que só quem é do Rio de Janeiro sabe ser.

Conta sobra a sua transição de advogada para memories maker?

Sempre fui uma pessoa muito visual: amo design, arquitetura, decoração, moda, então, mesmo trabalhando com direito, sempre dedicava um tempo aos meus hobbies, fosse uma exposição, boas revistas, admirar vitrines incrivelmente montadas, viajar e visitar prédios e ruas especificas... contudo, de uns anos para cá (uns 5), eu não me sentia completa com a advocacia e perto de mudar de carreira, eu não sentia mais satisfação com o direito, sentia uma vontade imensa de trabalhar com algo que envolvesse criatividade, cores, texturas... cores e texturas eu definitivamente não encontraria no direito.

Em 2014 me mudei para Durham, cidade pequena na Carolina do Norte, cuja vida gira em torno da universidade de Duke, onde fui fazer meu LLM (mestrado em direito). Foquei basicamente em propriedade intelectual, fashion law e, enquanto eu achava o assunto interessante, eu sabia que a minha vontade era de estar do outro lado, o da criação. Mas criação do que? Nem eu sabia.

Paralelamente à isso tudo, como uma pessoa extremamente saudosista, que adora relembrar momentos e histórias, sempre gostei de fotos, de coloca-las em álbum mas, até mesmo eu acabei acumulando milhares delas em meu computador, depois que passamos a usar máquinas digitais. A vontade de coloca-las em álbum era grande, mas o processo ficou complexo: seria preciso dedicar um tempo para selecionar fotos (o que não acontecia quando éramos obrigados a revelar para ver as fotos), dentre as milhões de fotos muitas vezes em uma mesma situação (o que também não acontecia com máquinas de filme) e, depois dessa seleção, colocar para revelar, sendo que hoje bons laboratórios são quase um mico leão dourado, e só depois conseguir colocar em álbum, mas este também era um problema: depois de tanta dedicação em selecionar, revelar, eu não encontrava opções que me agradavam, não entrava na minha cabeça a ideia de que depois de dedicar tanto dinheiro e tempo, eu teria que comprar alguma opção que não me agradava, e deixar mais um álbum jogado dentro de um armário. Eu poderia sim ter recorrido à esses álbuns que você cria em um site, mas definitivamente, não era esse o pouco cuidado que eu queria destinar às minhas melhores memorias.

Eu queria algo que gostasse, que pudesse deixar na sala da minha casa, fosse numa mesa de centro, fosse em uma estante. Já nos estados unidos comecei a conversar sobre isso com meu marido, como ter fotos em álbum virou algo difícil, e como as nossas melhores memórias, na melhor das hipóteses, terminava em um álbum feio, esquecido. E como seria legal ter uma opção de álbuns mais bacanas e, para aqueles que não tem tempo ou paciência, ter alguém que pudesse selecionar, revelar, montar... enfim, cuidar de todo o processo e receber o álbum pronto.

De volta ao Brasil, dessa vez São Paulo (sou carioca), voltei à trabalhar em um grade escritório de advocacia, e, já que eu não sabia o que exatamente eu queria fazer fora do direito, dessa vez resolvi dedicar meu tempo livre para assuntos que me interessavam: fiz curso de arranjos de flores, e, então, resolvi aprender a encadernar, para fazer álbuns que eu de fato gostasse, e poder colocar aquelas mil fotos acumuladas em um álbum que eu adorasse. Aí pronto...as amigas viram, gostaram, começaram a pedir, e eu não parei mais.

Você sempre foi crafter? Ou chegou a fazer algum curso para se especializar nos álbuns? 

Sempre gostei de coisas manuais, cores.. Com uns 12 anos eu viajava para a casa de campo dos meus pais para ter aulas particulares de origami, em viagens de família para resorts no brasil, eu estava sempre nas aulas manuais...

Em 2015 fiz um curso rápido de encadernação, para tirar o meu plano antigo do papel, e me apaixonei. Comprei vários livros na Amazon para aperfeiçoar a técnica e não parei mais.

Como foi o caminho até o desenvolvimento do seu primeiro álbum? Materiais, pápeis, sketches...

Eu já sabia exatamente que tipo de álbum queria para mim: que tivesse um tamanho de table book, para poder deixar na minha mesa de centro ou estante, revestido em um outro material para além do couro e com uma gravação bonita, hora mais sóbria, hora mais divertida. A primeira opção de revestimento que me veio à cabeça foi o linho, acho lindo e jamais aceitaria usar qualquer material que tivesse componente sintético.

Para o papel, também sabia que queria algo encorpado, para deixar o álbum mais sofisticado, mas precisava de um papel de ph neutro, para conservar as minhas fotos.

Para a gravação, fazia questão de ter algo feito à mão, e não uma máquina fazendo gravações automáticas. Isso porque, a gravação manual (letterpress), onde letra por letra são gravadas manualmente; ao meu ver, é infinitamente mais charmoso, e afetusoso, existe uma pessoa dedicando muito zelo e esmero ao trabalho. Além de manter viva uma técnica antiga, que é o letterpress. É mais demorado, é mais caro, mas para mim, não há comparação...

Então, como eu já sábia bem como eu queria o meu álbum, não precisei testar tamanhos e modelos, pratiquei muito um só modelo, até estar 100% satisfeita com a costura das folhas, com o acabamento da capa...

Trabalhava no escritório durante a semana, mas aproveitava a proximidade com a minha casa para usar as horas de almoço para costurar folhas, fazer capas. Como eu e meu marido somos super caseiros, passei finais de semana à fio praticando.

E como é o processo? Da escolha do material até o produto final? É tudo personalizável?

Quase tudo é personalizável, apenas o tamanho que eu não gosto de personalizar. As vezes me perguntam se não faço em um tamanho diverso, ou com menos folhas, mas isso significaria fazer algo que eu não acho bacana, então, nessa situação, eu explico ao meu cliente que pesquisei bastante até chegar à um tamanho que eu acho bonito, sem perder a praticidade, e eles sempre acabam concordando comigo ;)

Nesse sentido, é possível escolher o revestimento, que pode ser de linho ou couro, a gravação na capa (que pode ser escrita com a minha letra padrão ou ter um texto/desenho personalizado), podemos escrever nas páginas internas do álbum, através de caligrafia manual. Podemos pintar a capa, bordar, fazer marchetaria...

De onde vem a sua inspiração? 

A inspiração pode vir dos mais variados lugares, mas acho que muito vem da minha rotina, vou à muitas exposições, galerias, ando pela cidade inteira, o que me empresta muita ideia de cor, desenho. Assino muitas revistas, tenho paixão por livros e acabei acumulando uma considerável quantidade, muitos de arquitetura, design, arte, e estou sempre folheando e encontrando ideias bacanas... minha compra mais recente foi um livro de arquitetura mexicana, fiquei alucinada com as cores, as texturas, e isso me fez passar algum tempo procurando revestimentos que tivessem cores similares, testei desenhos... Recentemente fui à um evento que tinham bolas gigantes coloridas, o que me lembrou um pouco a arte da Kusama, e, bebendo um pouco dessa fonte, hoje estou criando um álbum bem especial para uma viagem ao Japão.

Outro dia fiz um álbum com uma flor, inspirada em uma louça Formasetti, e um olho de uma embalagem linda da Gucci. A inspiração vem de tudo que enche meus olhos.

Me fala mais sobre os produtos da MH. 

Hoje fazemos álbuns de fotografia, caixa para o álbum, livros de assinatura, livros de maternidade e, recentemente, para clientes que fazem o livro de bebê, fazemos também a porta de maternidade.

Adicionalmente ao álbum e fotografia, oferecemos o serviço de seleção, revelação e montagem das fotos no álbum.

Todos os álbuns são feitos inteiramente à mão, as folhas são costuradas uma a uma... sou uma eterna fã do charme handmade e slow. Sempre falamos de como ficou difícil ter fotos em álbum, mas existem sim por ai algumas opções onde você pode upload suas fotos em um site e receber em pouco tempo um álbum impresso. Eu vou na direção oposta, faço álbuns para pessoas que tem um profundo apego com suas memórias, que fazem questão de guardá-las de uma maneira especial, em um meio que envolve um trabalho minucioso e, com certeza, afetuoso, nada impessoal.

E ainda esse ano, teremos novidades ;)

E qual você mais gosta de fazer? 

Adoro poder criar uma capa diferente, fugir do tradicional... criar um desenho diferente ou poder fazer um bordado mais elaborado.

Gosto muito montar as fotos... para mim, não deixa de ser uma certa viagem, sobretudo quando o álbum envolve uma viagem para um lugar que eu nunca fui.

Qual foi o projeto mais especial até hoje?

Essa pergunta é difícil de responder, pois sinto que todos os projetos são muito especiais, pois são únicos, envolvem uma historia pessoal, envolvem emoção, afeto... fico tão ansiosa quanto meus clientes, todo álbum acaba virando pessoal para mim também, me envolvo com a historia e cuido dela com muito afeto.

O que você gosta mais de “consumir”, seja lendo, vivendo ou comprando mesmo, arte ou moda? 

Sempre que tenho tempo, gosto de dedicar meu tempo ( e dinheiro) à cursos, que podem ser de arte, historia, bordado... adoro procurar livros e através deles aprender algo novo. Agora, por exemplo, estou aprendendo a fazer esculturas em papel. Desde criança tenho obsessão por livros (talvez isso tenha me guiado um pouco para o direito), dos mais variados assuntos, adoro um passeio até uma livraria (adoro a Cultura da Alameda Aantos ou a da Vila, na Lorena) e está aí uma conta que pode vir alta e eu não sinto qualquer peso na consciência. Sinto uma satisfação enorme em poder ter ao meu alcance livros que me inspiram, ou que me fazem viajar para longe.

Sempre tive um particular interesse por arte e história. Ainda pequena, minha mãe me levava para todas as exposições que tinham no Rio, ela fazia questão de mostrar à mim e aos meus irmãos esse universo. E isso fez crescer em mim uma paixão. Uma das coisas que eu mais gosto de morar em SP é a vida cultural extremamente agitada. Gosto de consumir arte, mas acho que a graça está em pesquisar, conhecer, se envolver com a historia da obra, do artista, precisa ter um significado.

Acho que gosto de bastante coisa (kkk), sempre amei moda, revistas de moda, de alta costura, comprar roupas. Gosto muito de me vestir, mas diria que hoje as minhas preferências no que se refere à moda mudaram bastante.

Um dia falamos sobre essas comprinhas de moda. Como é a sua relação com o consumo? 

Eu não sou muito de comprar modismos, pode vir a moda do tamanco, da bota que vai até a cintura (como essa da Vetements), da micro bolsa que não cabe nem o menor dos celulares e isso não me pega. Só vou comprar aquilo que eu amo de verdade e sei que posso usar a vida inteira (e bota até a cintura não é uma delas), se calhar de ser algo que a Vogue diz que é moda, será apenas uma coincidência.

Antigamente eu gostava de comprar em mais quantidade, viaja e ficava louca na Zara (kkk), mas com o tempo eu fui sentindo a necessidade de ter roupas de melhor qualidade, atemporais, nem que isso signifique comprar menos. Gosto de prestigiar aqueles que de fato criam coisas originais, com personalidade, e não apenas uma repetição da loja vizinha.

Prefiro pagar mais caro em uma peça atemporal, do que comprar muitas e muitas peças de uma loja mais em conta.

Claro que não aboli a Zara da minha vida, mas vou pouco, para uma coisa ou outra.

E quais as marcas que você mais curte?

Adoro o Helmut Lang, Philip Lim, Stella Mccartney, Marni, Prada, Acne, Vince, Egrey, Patricia Viera, Isabela Capeto, Etoiles.

Porque você escolheu essas marcas?

Algumas delas por oferecem o básico com uma modelagem arrojada (Helmut, Stella, Philip), amo a Egrey, pela simplicidade que é muito chique, adoro as roupas femininas e muito Autorais da Isabela Capeto, as peças exclusivas, femininas e divertidas da Etoiles.

O que pra você é mais importante na hora de montar um look?

Vestir o que de fato é o meu estilo, não tentar usar algo que não é o meu estilo mas porque ficou bacana em alguém. Isso nunca funciona comigo. Sei exatamente o que funciona em mim e nem perco tempo insistindo em peças que eu não amo de cara, caso contrário, ficarei desconfortável.

Adoro as fotos do insta da MH HANDMADE MEMORIES. Os seus looks quase fazem parte do produto final e a apresentação fica incrível. Isso é espontâneo ou rola uma produção? 

Adorei ouvir isso, porque é muito natural e volta e meio acho o meu insta feio kkkk! O que eu sempre quis para o Instragram é que ele transparecesse, genuinamente, o universo que cerca a marca. Não tem produção, tiro fotos dos álbuns na minha casa, com algum objeto meu, com a flor que tem em casa naquele dia, as fotos de dia a dia (que não tem álbum), são fotos que tiro por aí, de tudo que me interessa, ou que acho bonito. Muitas fotos que vão para meu Instagram são de viagens minhas, gosto de dividir um pouco o que vejo por ai, dividir as memórias que eu vou construindo...

O Instagram é a sua principal plataforma de divulgação? 

Totalmente! Não tenho site, assessoria...

Para quem quiser encomendar: contato@mhhandmadememories ou 011 944751174

Uma dica de wellness: 

Funciona para mim: fazer exercícios logo pela manhã me deixa animada, se for no parque então, em contato com a natureza, melhor dos mundos. Me deixa disposta para o dia.

Restaurantes favoritos em São Paulo e no Rio:

Em São Paulo eu amo o Moinho de Pedra (vegetariano maravilhoso!), Le Jazz, Maní, Ohka, Marakuthai e Vecchio Torino ( o gnocchi de lá é de comer rezando) e, no Rio, o Le Blé Noir, Irajá e Esplanada Grill.

Melhor viagem: Essa é bem difícil, amo viajar. Grécia com meu marido. Melhor lugar do mundo!

Melhor drink: uma sangria, amo!

Para desestressar: uma boa corrida no parque ou uma pipó+apple tv

O “Women Behind The Brand” é uma tag super inspiradora sobre empreendedorismo e mulheres criativas. Para ler outras matérias e entrevistas com founders e creative minds, clique aqui.