Estaria o Instagram nos deixando manipuladores dos próprios sentimentos?

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Uma vez ouvi que toda obra é destinada à uma única pessoa. Seja um filme, um livro, uma pintura... Alguns autores/artistas já deixaram isso bem claro e confesso que amo quando o fazem. Não é apenas sobre quem é a inspiração por trás da mesma, mas também a quem ela se destina. 

Exemplo disso são as cartas abertas, você se abre para o mundo, mas na verdade só quer compartilhar o que gostaria de dizer a única pessoa. Somos levados a nos expor quando acreditamos que mais pessoas deveriam ter conhecimento daquilo, especialmente se você passou por algo muito legal, você quer contar para o mundo. Você quer contar para aquela pessoa especial, ou várias delas. As redes sociais nos colocaram um megafone em mãos para estas situações e nos deram o aporte necessário para que nossas histórias sejam espalhadas por aí. 

Parei para refletir sobre isso quando respondi a uma pergunta em um perfil que adoro no Instagram (@the_skindeep), o projeto do Skin Deep explora o tema da conexão humana na era digital. Comecei a pensar nas pessoas que veem meus stories e como me comporto neles, quando exponho algo que aprendi ou simplesmente posto algo pensando em alguém (indiretas não, tenho horror a isso). Pensei também nas pessoas que acompanham minha vida mas nunca comentam nada. Claro que tenho textos que foram escritos pensando em alguém e publiquei stories para uma pessoa só. No entanto, não sei se a pessoa certa percebeu que era pra ela. 

Hoje, por acaso, postei uma frase de Henry David Thoreau, “rather than love, than money, than fame, give me truth”. Vi essa quote relacionada à um filme que adoro - “Into the Wild” - e me questionei: Por que buscamos agradar uma audiência por meio de obras repletas de entrelinhas e não sendo direto com ela? Sei que às vezes, como no caso de Richard Linklater e da trilogia “Before”, o diretor fez sua obra com o intuito de que ela chegasse à uma pessoa pois ele não tinha como encontrá-la… Mas quando temos contato direto, por que não sermos sinceros e diretos?

Nunca sabemos quem a gente pode inspirar, quem a gente pode atingir com nossas palavras, às vezes porque algumas pessoas simplesmente não reagem, não demonstram interesse. Recentemente vejo que eu errei e errei muito. Errei por não ser minha própria audiência. Aconteceu algo na noite do meu aniversário que acabou comigo - noite esta que considero a mais especial do ano. Sem entrar em muitos detalhes quanto ao ocorrido (rsrsrs), dois dias depois, apesar de ainda estar com o coração doído, antes de sair com uma amiga, postei uma foto vestindo um macacão lindo e com sorrisão enorme no rosto, enquanto por dentro eu só queria estar de pijama vendo “Orgulho e Preconceito” em looping

Então me pergunto novamente: - Quem é a sua audiência? Você se inclui nela? Por que ocultar nossa realidade quando precisamos apenas de objetividade e sinceridade? Por que manter uma aparência que não é sincera quando poderíamos apenas abster-nos de nossa imagem ou nossa palavra? 

Na noite de ontem, nem a camisola de seda nova que eu vinha usando parecia confortável. O sono estava agitado, ainda está… uma série de sonhos estranhos ocupa minha cabeça, mas esse texto vem sendo escrito como algo que precisava ser dito. Tenho um amigo que depois de 5 anos de amizade, disse a mim tudo que eu signifiquei para ele quando nos conhecemos ao acaso, em um domingo qualquer. Respondi com muito carinho e me abri falando sobre como ele também era importante na minha jornada.

A gente não perde por ser sincero e direto com a nossa audiência, não é mesmo?! Mesmo que ela se consista de uma única pessoa. A lição que fica comigo nesse aniversário é: que eu seja ainda mais sincera com a vida, especialmente comigo e mais ainda com os outros, mas que eu também nunca deixe de desconfiar daqueles que se dizem sinceros. E nos momentos que precisar, que eu saiba me abster para meu próprio bem.