O que eu mais ganhei com 40 dias de shopping detox: tempo

7675AC01-7B15-4794-B86A-E2119BCEE837.JPG

Fui passar o fim-de-semana na casa de uma amiga que estava fazendo quaresma de compras – aquele período que os católicos se abstêm de alguma coisa, normalmente é carne, chocolate ou álcool, nada muito complexo. Quaremos de compras é mais desafiador, é um padrão de comportamento mais profundo, quase como o álcool. O hábito de quem compra muito e compra sem pensar, é muito difícil de ser controlado e alterado, porque aparentemente você não está fazendo nada de errado, tipo ficando bêbado 3h da tarde uma terça-feira. E você não vê o efeito das suas atitudes em tempo real, você não sai com todo seu dinheiro na carteira e vai gastando, para literalmente ver ele indo embora. É aquela típica coisa que a gente lida depois, mandamos para caixinha do “depois eu me viro”, mesmo lugar onde ficam as contas atrasadas, documentos vencidos, conversas adiadas e o armário bagunçado. Quando a Camila me contou e meio que me chamou/meio que me coagiu com um olhar tipo “você não vai fazer?” eu achei que estava praticamente precisando e topei.

Foi mais ou menos assim: Eu tinha acabado de comprar um boné. Eu nunca mais tive um boné, depois dos 13 anos não fazia muito sentido. E agora que tenho melasmas, queria um boné cool e não muito perua. E foi aí que me deu um clique: porque eu comprei um boné? Meu marido deve ter uns 57 bonés, era só pegar um no armário dele. Mas esse tipo de pensamento dura segundos na minha mente, eu consigo substituir essa imagem por uma muito mais legal, e nessa imagem mais legal eu estou com meu boné novo e incrível. É como seu eu precisasse desse tipo de novidade na minha vida constantemente, something to shop forward, mesmo que seja apenas um boné. Então resolvi topar o desafio. Uma outra amiga recomendou chamar de detox de compras, quaresma podia pegar mal e detox é tão mais cool!

Foram 40 dias sem comprar. A quaresma da minha amiga incluía tudo. Coisas para casa, crianças e para ela. Não podia comprar nada. Eu me encontro no meio de uma house renovation, não ia dar pra ficar sem comprar as coisas para a casa. Então decidi que meu detox seria para mim e para as kids, compras só em caso de necessidade. O difícil foi definir o que é caso de necessidade. Comprei cosméticos, mas maquiagem não. E cosméticos que eu estava precisando, deixando bem claro. Eu costumo usar meus cosméticos até o fim e não compro outro enquanto não acabo, então me liberei.

Nos primeiros dias não foi fácil ficar sem comprar. Foi bem no período do lançamento de coleções e toda hora chegava um whatsapp das vendedoras das lojas que eu curto me tentando. Fui no lançamento de marcas de amigas e não comprei nada. E a melhor parte foi que me senti super bem com isso – antes eu tinha uma sensação de estar perdendo alguma coisa, de não fazer parte de algum movimento se eu deixasse de comprar. Não ter alguma coisa nova para usar em alguma ocasião me deixava menos empolgada. Com o detox, eu arranjei a desculpa perfeita. E consegui resgatar algumas coisas do meu armário – a melhor parte foi usar um vestido da Prada de 2010 em Pessach.

Eu sempre tenho várias coisinhas que eu adoraria ter e passo boa parte do meu tempo window shopping – entro em todos os sites e fico recheando meu carrinho. O Instagram virou outro problema. Sou bombardeada (eu todo mundo) por marquinhas de Instagram que eu nunca ouvi falar, mas quero tudo. Minha última stupid shopping choice foi uma camisetinha que comprei porque vi alguém usando, mas é de um tecido e modelagem que eu não curto, sei que não vou usar – Acho que é aqui que esse detox de compras vai mais me ajudar. Eu preciso criar um mecanismo para não pular direto para o checkout quando vejo algo legal na internet. Quando eu tava no detox, esse mecanismo era o detox – funcionou direitinho. Acho que o que eu preciso é levar a compra mais a sério. Tirar um tempo para pesquisar mais sobre o produto antes de comprar, dormir um dia antes de tomar qualquer decisão de compra, por menor que seja.

FICAR SEM COMPRAR MEU DEIXOU COM MAIS TEMPO

Fiquei impressionada como eu gastava mal o meu tempo querendo coisas. Essa história de ficar window shopping é o tempo mais estupidamente gasto, pior que isso só ficar scrolling no Instagram. Com o detox, eu não tinha nem vontade de entrar nos sites, era como seu eu tivesse invertido os papéis e eu que estava no comando das minhas compras, não ao contrário (bizarro né? Mas a realidade é que elas meio que mandam em mim). Eu consegui fazer algumas coisas para a minha casa que estava planejando há anos – substitui roupas por plantas que deixou minha casa com mais vida. Organizei o menu da casa por pelo menos alguns meses, comprei roupa de cama que estava nos meus to dos há vergonhosamente 1 ano e defini as últimas questões do decor. E usei esse tempo para pensar muito sobre o Lolla e a minha vida. Consegui me organizar pela primeira vez de um jeito que não me sinto errada ou culpada, minhas prioridades estão bem claras pela primeira vez na vida.

É verdade que no fim do detox eu já estava sufocada e acabei acumulando algumas compras – mas são coisas que eu realmente queria e preenchiam as minhas novas regras de compras, mas mesmo assim elas me deixaram angustiada. Eu parei de perder tempo e de sabotar as compras que eu realmente quero fazer. Eu adorei a experiência e quero adotar mais vezes no ano. Criei que vai ser regra pós viagem, 40 dias sem comprar depois de toda viagem.

Mas não consigo parar de pensar em uma coisa: quais são as coisas que a gente compra pra gente e quais são as coisas que a gente compra para os outros? Acho que saber identificar isso antes de comprar e ter uma estratégia para se livrar dessa necessidade de causar qualquer sentimento no outro, já é muito positivo. 

LIFESTYLERosa Zaborowsky