Amores Platônicos: Como eu Podia Sofrer Tanto por Alguém Quando não Tínhamos nem Mesmo nos Beijado.

“Le fabuleux destin d'Amélie Poulain”

“Le fabuleux destin d'Amélie Poulain”

por Thereza Possato

Tudo começou na escola, aos meus 10 anos, quando conheci uma das minhas melhores amigas. Nessa idade, o que mais queríamos era ficar aproximadamente 20 horas por dia grudadas em nossas amigas.

O tempo foi passando, especificamente 5 anos, e nossa amizade crescendo cada vez mais. Junto com isso, vieram as tardes na casa dela, às vezes apenas para estarmos juntas, outras para estudarmos, afinal, as matérias exatas não eram nosso maior forte.

Tínhamos ajuda, o irmão mais velho dela ia prestar medicina para o vestibular, lucky me - or not. Por esse motivo, nas férias era intensivo de matemática, química, física, biologia (sim, todas essas), mas o principal era a overdose de irmão mais velho da amiga.

No começo, confesso, morria de vergonha de ficar perto dele. Com o tempo, com os estudos e ficando cada vez amiga da irmã dele, a vergonha foi embora, dando lugar à admiração e amizade.

Até o dia em que minha mãe, em uma tarde qualquer, me tirou o chão, “Filha, você não acha que está falando muito sobre o fulano, tem certeza de que você não está sentindo nada diferente por ele?” Na minha cabeça aquilo era tudo bobagem, ou pelo menos, eu achava que era.

Com o passar do tempo, fui percebendo que ficava com o coração acelerado ao entrar no elevador quando ia visitar minha amiga, na esperança dele estar em casa; ficava ansiosa para ele sair do quarto e vir me dar apenas um “oi”; quando ele não estava em casa, a visita à casa da minha amiga ficava menos alegre. Enfim, mamãe estava certa. Sim, eu estava apaixonada!

Passei a visitar minha amiga mais do que nunca, com isso, passei a conversar mais e mais com ele. Ficávamos horas e horas conversando, rindo juntos (ele me fazia rir horrores!), um dia até cantamos juntos (para ajudar ele tocou violão e cantou para mim, até hoje não posso ouvir Sozinho do Caetano Veloso sem lembrar dele). Apesar de tudo isso, do sentimento crescer a cada dia, a frustração também veio, já que ele namorava e minhas chances estavam cada vez menores.

Tudo foi ficando tão intenso que comecei a achar que ele finalmente me notava e olhava para mim de uma forma diferente. Ao mesmo tempo em que ele trocava de namoradas e nada acontecia. Até o momento em que comecei a achar que estava ficando louca, e resolvi me abrir com uma amiga que estava muito presente no dia a dia de ambos.

Quando nos víamos, ele brincava comigo, fazia comentários que mexiam comigo e me traziam esperança de algo acontecer, a ponto da minha amiga (a única que sabia de tudo) me confirmar que também tinha tido a mesma impressão que eu. O que me deixava mais confusa.

Isso foi acontecendo por mais ou menos uns 6 anos, o sentimento escondido, a paixão adormecida, as indiretas recebidas, o coração, que por momentos se enchia de esperança, também chorava escondido; a falta de ação da parte dele e da minha também.

Tudo aquilo começou a me fazer mal, o que antes era um sentimento que me fazia sorrir, ter palpitações e arrepios, passou a ser algo que só me trazia dor, tristeza e angústia.  Até o momento em que me percebi no fundo do poço, por uma pessoa que se quer me notava, ou se notava, não tomava nenhuma atitude, o que para mim era o pior.

Depois de muito chorar e muito sofrer, já que havia criado na minha cabeça uma imagem dele tão perfeita que ninguém para mim podia superá-lo, resolvi tomar uma decisão. Parei de frequentar a casa da minha amiga, não o via mais, não saíamos mais juntos, não sabia mais dos detalhes da sua vida e o tempo foi passando, até os dias de hoje.

Para as pessoas mais próximas para as quais acabei me abrindo, essa situação era um tanto quanto incompreensível. Elas não entendiam como eu podia sofrer tanto por alguém quando não tínhamos nem mesmo nos beijado.

Pode parecer loucura tudo isso, nem eu mesmo entendo tudo o que aconteceu. Até hoje confesso, não sei ao certo se o que eu senti foi amor, nunca mais senti nada parecido para saber. Olho para trás e um filme passa pela minha cabeça. Tantas coisas fantasiei graças a esse sentimento, tanto coisa eu deixei de viver por achar que ele era ELE.

Ainda tem momentos em que relembro tudo isso e fico me perguntando, será que ele sabia ou não, será que ele alguma vez suspeitou do que eu sentia, será que ele sabia e apenas brincou com o que eu sentia, será que ele apenas teve medo e não conseguiu tomar uma atitude, será que ele simplesmente não queria nada comigo? Assim como me pergunto se não deveria ter contado a ele, se não deveria ter investido, me mostrado interessada, se não deveria ter arriscado...  São muitos “serás” e “ses”, que não vão mudar a realidade de hoje.

Segui minha vida, conheci poucas pessoas depois dele e não consegui me interessar de verdade por ninguém depois disso. Já inclusive, cheguei a pensar que não iria mais me apaixonar por ninguém, nunca mais. Não sei o dia de amanhã, o que acontecerá, quem vou conhecer... Mas quanto a essas coisas, já entreguei ao universo.

Quanto ao mocinho da história, não o vejo há dois anos. Não sei se ainda sinto algo por ele ou não, talvez eu nunca saberei. Resta continuar escrevendo a minha história, talvez agora com menos medo de arriscar, de sofrer, mas pelo menos sem receio de tentar.

por Thereza Possato