O amor e o vocabulário. Em busca de uma definição mais especifica para os diferentes tipos de amor.

Image: Mr. Brainwash - Denis Bloch Fine Art

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Roman Krznaric é um dos fundadores da The School of Life e é uma espécie de Leandro Karnal da língua inglesa.  Um desses brilhantes historiadores modernos que conseguem traduzir para leigos conceitos filosóficos complicados, democratizando conhecimentos antes restritos a uma pequena parcela da população.  No final do ano passado li seu livro “Sobre a arte de viver” no qual compila conhecimentos de diferentes épocas históricas com o propósito de extrairmos lições para vivermos melhor os dias de hoje.  Gostei tanto do livro que na época escrevi um texto sobre o capítulo em que trata do Tempo, e nesta semana lembrei do capítulo em que fala sobre o Amor.  

Roman traz uma reflexão que achei curiosa.  Apesar de vivermos em uma era de infinitas possibilidades e variedades sobre absolutamente tudo, temos um vocabulário incrivelmente pobre e limitado quando tratamos de um tema tão relevante e complexo como o amor e suas (infinitas) variações.  Ao mesmo tempo em que podemos encontrar leite integral, semi-integral, desnatado, de castanha, de arroz, de soja e até leite sem lactose, usamos quase sempre o mesmo termo – o todo-poderoso “Amor” - para falarmos de sentimentos radicalmente distintos. Mas nem sempre foi assim.  Na Grécia antiga existiam variações claras para o que hoje gostamos de consolidar em um único vocábulo soberano. Eros representava a ideia de paixão e desejo sexual. Philia trazia a ideia dos laços profundos, relacionada ao conceito de amizade e lealdade. Ludus era uma ideia ligada ao amor brincalhão, algo mais conectado ao flerte, e presente por exemplo, na dança. Ágape era ligada ao amor altruísta, e continha conceitos ligados à compaixão, solidariedade e empatia. Pragma estava mais relacionado a um amor maduro, em que compromissos, tolerância e companheirismo eram fundamentais para a manutenção da relação. E finalmente Philautia, uma variação ligada ao conceito de amor-próprio. São todas formas incontestáveis de amor, porém convenhamos que podem ser “bichos” bastante diferentes.  


Hoje em dia, por mais sofisticados que estejamos no entendimento de várias questões, muitas vezes nos confundimos ao tentarmos concentrar uma vastidão de afetos num único termo linguístico. E para o autor, ainda mais preocupante do que a questão semântica, é a busca desmedida e utópica pela satisfação de todas as nossas necessidades “amorosas” com uma única pessoa, em um único relacionamento, tudo junto e misturado e agora, influenciados pela ideia do amor romântico que surgiu no último milênio.  Por mais difícil que seja abandonar o ideal de encontrar nossa alma-gêmea e viver com ela Eros, Philia, Ludus, Ágape, Pragma, Philautia e tudo mais que a pobre coitada possa nos oferecer, Roman acredita que os sábios gregos antigos podem ajudar na ampliação de nosso repertório sobre diferentes fontes possíveis de amor e sobre a importância de nutrirmos nossos relacionamentos familiares, fraternos, com amigos, com a sociedade em geral e até conosco mesmos para encontrarmos aquilo que estamos buscando. Adoro este grafite que vemos passeando pela Highline em NY no qual Einstein segura uma placa com os dizeres “Love is the answer”.  É uma frase indefectível para lacrar nas redes sociais.  Difícil alguém não concordar que o amor é sempre, sempre, sempre a resposta para tudo. Mas, embora essa afirmação seja absoluta, tem horas que ajudaria bastante ser um pouco mais específico, né Albert?