Um papo com Mara Coimbra, colaboradora internacional do Lolla, sobre como é criar filhos na Europa.

mara+oli+e+lio.jpg

Mara Coimbra mora na Holanda com Olivia, Lio e Max, seu marido. Ela também escreve no oliviamedisse.com e aqui no Lolla sobre maternidade e viagens.

Q. Como foram os primeiros anos na Europa?

A primeira vez que vim para Europa estava nos meus 20 e poucos anos, ainda na faculdade. Foi uma experiência incrível, trabalhei e estudei e me apaixonei por Londres. Viajei enlouquecidamente, naquela sede e deslumbramento de conhecer tudo de uma vez. E foi assim que nunca mais voltei para o Brasil. Já os primeiros anos na Europa, como mãe, não foram tão radiantes assim. É bem difícil ter um bebê longe de casa e das pessoas que você pode confiar e se sente confortável em estar perto. Minha mãe veio para ficar comigo mas só por um mês. Phew.

Q. Você sempre quis morar fora do Brasil?

Sim, desde que eu era bem pequena e lia as revistas National Geographic do meu pai e nem sabia o tamanho que o mundo era. Mas sonhava com aqueles lugares. Meus destinos favoritos eram Espanha ou França, até estudei francês na faculdade de letras, mas por ironia do destino nunca morei em nenhum dos dois lugares.

Q. Você morou primeiro na Alemanha e agora está na Holanda. Qual a maior diferença entre os dois países?

Eu sempre acho muito curioso o quanto os países na Europa são tão próximos um do outro e ao mesmo tempo tão diferentes culturalmente. Se eu tiver que escolher uma diferença só entre Alemanha e Holanda, porque acho que são várias diferenças, eu diria que a simpatia do povo. Foi o primeiro choque cultural que tive em ambas nações. Na Alemanha o pessoal é surpreendentemente sem educação e grosso nas palavras e no jeito de tratar os outros e na Holanda são bem simpáticos e amigáveis. Na medida do possível, sabe, ninguém é tão gente boa assim como nós brasileiros! Agora estou sem saber se foram os anos duros vividos ao lado dos alemães que me fez achar o holandês gente boa!

Q. Acha que o design europeu, principalmente dos países nórdicos, te influencia no dia a dia?

Agora que moro na Holanda mais ainda, eles são bem parecidos com os países da escandinávia no lifestyle e decor por exemplo. Tem muita influência nas revistas e lojas então você acaba comprando coisas com design mais clean. Pra mim foi super fácil aceitar a influência porque adoro o minimalismo monocromático do design escandinavo.

Q. Como é um dia típico seu na Holanda?

Eu acordo e levo os meninos andando para a escola, que fica a 5 minutos de casa. Quando o mais novo não tem aula, 3 vezes por semana, passeamos pelo vilarejo de bicicleta, ele na cadeirinha na minha garupa. Vamos ver os cavalos e ovelhas das fazendas vizinhas até chegar na minha padaria favorita que fica dentro de um moinho de vento. Lá eu tomo café, ele come pão e voltamos para casa. Almoçamos e ele tira uma soneca enquanto eu faço minhas coisas.. Às 3 da tarde buscamos Oli na escola e brincamos um pouco na frente de casa com os vizinhos. Depois é hora da maratona noturna: jantar, banho e cama. Se eu tirar a sorte grande e tudo correr como planejado, ainda tenho uns minutinhos à noite para ler ou colocar alguma pendência em ordem.

Q. Como é criar filhos europeus?

Apesar dos dois terem nascido na Alemanha eles são brasileiros. Eu e meu marido somos brasileiros, então pela lei eles também são. Eles são naturais de Nuremberg, cidade onde nasceram, mas tem nacionalidade brasileira. Criar filhos brasileiros na Holanda está sendo um desafio por causa da língua. Aqui em casa falamos português e inglês e as crianças são bilíngues. O holandês estão aprendendo agora na escola. Esbarramos em questões culturais como almoçar pão (ninguém come no almoço igual no Brasil) e algumas diferenças de comportamento. Como somos uma família integralmente brasileira, acho que é mais fácil seguir com nosso jeito próprio de criar as crianças.

Q. Alguma dica sobre viajar com crianças pela Europa?

Eu acho a Europa fantástica para explorar com crianças. É em geral bem kids friendly! Quase sempre passamos as férias de verão na Itália onde tem praias lindas e calmas combinadas com cidades de arquitetura fascinante (muitas edificações não foram destruídas nas guerras, então é quase tudo original e bem conservado; é um museu a céu aberto!). Pizza, pasta e gelato para fechar com chave de ouro. O Lago de Garda me impressionou muito, quero voltar esse verão.

No inverno sempre vamos pros Alpes, minha parte queridinha é a Áustria. Os hotéis sempre tem playgrounds ótimos e as crianças podem fazer aulas de ski durante o dia.

Uma dica geral seria bookar antes os restaurantes que você gostaria de ir e avisar que vão crianças. Assim evita-se ficar do lado de fora esperando por uma mesa e eles podem preparar para receber os pequenos. No verão, é uma boa procurar por parquinhos no google maps para fazer uma pausa no dia e quem sabe até fazer um picnic e no inverno a gente sempre visita bibliotecas públicas que sempre tem espaço para criança brincar e é gratuito!

Q. Você incorporou alguma coisa da educação europeia no dia a dia com as crianças?

Uma coisa que tento incorporar é ser firme nas decisões e deixar que eles se virem sozinhos, façam suas próprias coisas. Criança aqui é super independente. Desde vestir-se sozinho até ir pra escola sem os pais. Essa questão da independência pode parecer banal e fácil de lidar mas como cresci no Brasil sou aquela mãe super protetora e acho que eles precisam da minha ajuda para tudo.

Q. Como morar na Europa influenciou no seu estilo?

Morar na Alemanha tanto tempo, especificamente, mudou meu jeito de consumir. Comprar local, comprar menos, comprar melhor. E isso mudou meu estilo. Fiquei mais minimalista e agora tenho um estilo mais clean. No dia a dia, as pessoas são mais simples na hora de vestir então acabo não me produzindo tanto quanto fazia no Brasil. As pessoas não se arrumam para buscar o filho na escola muito menos para ir ao supermercado, sabe?

Q. Como você lida com a solidão?

Mesmo estando rodeado de familiares e amigos, morando em qualquer lugar do mundo, ainda assim corremos o risco de nos sentirmos sozinhos, né? Toda vez que bate aquele sentimento de solidão eu tento lembrar o porquê é que eu quis morar fora do Brasil. Durante esse tempo morando fora sempre procuro encontrar divertimento em fazer coisas sozinha. Ir ao cinema sozinha, fazer um workshop de alguma coisa inusitada. Andar pelo centro da cidade e sentir a cidade viva, funcionando, cheia de gente andando pra lá e pra cá também me faz encher a cabeça de idéias e afasta o pensamento de que estou só.

Q. Última compra que fez?

Acabei de comprar um pão holandês 9 grãos que é minha perdição por aqui, não me ajuda nada com minha dieta. Brincadeira! Um grey jeans da 7 for all mankind.

Q. Livro que está lendo?

Nunca leio um livro só! Acabei de comprar o Reading like a writer da Francine Pose, nunca paro de ler o Livro do Desassossego de F. Pessoa e estou lendo Sapiens do Yuval Harari.

Q. Um dica de local para quem está planejando uma viagem para a Holanda.

A Holanda não é só Amsterdam, gente! Vá para o interior! Aliás eu acho que o interior tem muito mais características e elementos holandeses do que a capital. Eu indico Rotterdam, Utrecht e Maastricht.