Sobre viagens, amores e acasos.

vinícola.png

Poucas vezes na vida fui tomada por uma sensação de leveza e euforia simultâneas. De sorriso leve e frouxo, daqueles que nos faz mostrar os dentes sem nos preocuparmos com o nosso redor. Esse texto já estava em sua terceira versão quando eu ouvi a música Mistery of Love, de Surfjan Stevens, que concorreu ao Oscar este ano como melhor canção, parte da trilha sonora do filme Call Me By Your Name. Imbuída pelo sentimento bom trazido por essa canção, que foi capaz de me deixar leve e sorridente, não só rememorei muitos momentos felizes e únicos como fui capaz de transformar esse texto.

É em meio ao clima de viagem e arte que a história de Call Me By Your Name se desenvolve. Quando Mr. Perlman, um acadêmico, recebe um pesquisador em sua casa, Oliver, e ele acaba desenvolvendo uma forte ligação com Elio, seu filho. Eu confesso que não sabia o que esperar o do filme até ver a cena na qual Mr. Perlman, em um belíssimo monólogo sobre amor e aceitação discorre sobre a importância de vivermos os momentos pelo simples fato de serem únicos. E ontem, ao cruzar o tapete vermelho, o ator Michael Stuhlbarg, que interpreta este pai, fez questão de nos lembrar sobre o quão afortunados somos por nos apaixonar e a importância de nos permitir sentir o amor. Nunca fui tocada por um discurso tão bonito como o de Perlman e acredito que o mesmo sirva para muitas pessoas, afinal o amor não se reserva à pessoas, mas também à experiências, quantas vezes nos impedimos de viver algo com profundidade por medo? A frase de Michael me lembrou o clássico de Lewis Caroll, ao ser indagado por Alice sobre quanto tempo dura o eterno, o Coelho responde: “As vezes, apenas um segundo”, o que reforça como devemos aproveitar os momentos e a singularidade dos mesmos podendo assim ser eternos e nos marcar independente da duração, assim como um pôr do sol, um diálogo ou um romance de verão.

Aprendi com um amigo que uma viagem, essa experiência repleta de momentos e novidades é como a vida em geral. Você nunca sabe o que esperar dela apesar de todo o planejamento envolvido ou com o que as pessoas comentam sobre suas experiências, por conta das surpresas que encontramos no caminho. Eu imagino que Oliver também não sabia o que ele encontraria naquele verão italiano. São coisas que por mais que planejadas escapam do controle. As viagens carregam consigo o desconhecido. Momentos bons e, talvez, alguns ruins. Experiências memoráveis capazes de moldar a sua trajetória, outras nem tanto. E pessoas que irão marcar a sua vida.

Acredito que as pessoas se apresentam por meio de suas experiências, ainda mais com as advindas pelo acaso, que vive nos fazendo surpresas e proporcionando diversos instantes. Já ouvi algumas vezes que tenho uma paixão pela vida que é invejável. Na verdade, acho que eu já seguia os conselhos do ator antes mesmo de conhecê-los, eu me permito viver cada instante.

Gosto sempre de contar uma história sobre um dia no qual me perdi na China. Não digo me perder geograficamente, mas me deixei ser seduzida pela experiência do local, reflexo de um texto que li, talvez no terceiro ano da faculdade de Arquitetura, no qual o autor fazia um convite à perda. Ele basicamente falava sobre a experiência de se perder na cidade, sem mapa, sem trajetos, redescobrir caminhos, mesmo que no seu próprio bairro. Um convite ao passeio sem companhias, à margem de nossas experiências propiciadas pelos acontecimentos acidentalmente encontrados no caminho. Era como me permitir viver a experiência do encontro com a cidade por completo.

Uma viagem nada mais é do que uma alusão à vida. São jornadas que carregam altos e baixos, algumas experiências memoráveis, outras não, pessoas e eventos. Ainda sobre a viagem na China, poucos dias antes eu senti uma sensação única, me apaixonei - pela primeira vez - por uma obra de arte. Não era uma obra qualquer, era uma exposição itinerante sobre Grandes Mestres Italianos. Foi ali que me deparei com uma obra que há muito tempo eu queria conhecer: La Scapigliata, ou Cabeça de Mulher, uma pintura em madeira de Leonardo Da Vinci. Ao me deparar com a obra datada do século 15, eu chorei por uns vinte minutos.  Um colega veio me buscar pois achou que eu tinha me perdido, ao me ver chorando apenas me disse: “Tome o tempo que quiser”. O sentir, às vezes, não perde permissão, ele nos atropela; invade. E a arte é assim, ele deve te fazer sentir, assim como experiências e cidades.

Entretanto, não é apenas por arte que eu me apaixono, mas por cada novo destino ou descoberta.  Usei como epígrafe da minha dissertação de mestrado uma frase de Christian Louboutin na qual ele dizia: "só se apaixona por cidades e lugares quem se apaixona por pessoas”. Eu achava curioso ver pessoas comentando: “Quando fui a Paris, chorei” ou “quando pisei em Barcelona, eu estremeci”. Acredito que na verdade eu não as entendia pois eu nunca tinha chorado ou estremecido em algum lugar, quando eu contava sobre a minha experiência diante da obra de Da Vinci as pessoas não me olhava como olhavam quem falava que tinha chorado ao ver a Torre Eiffel. Diante disso, continuei minha jornada. 

Foi como uma viajante sozinha na China que conheci esse amigo que me ensinou sobre a vida e viagens. Eu tinha vinte anos e faria vinte e um alguns dias depois. Para ressaltar a intervenção do acaso, devo dizer que meu avô havia morrido semanas antes do meu embarque e, ao ter uma crise de choro num museu por conta do luto tardio, me indicaram ir a um templo budista fazer um rito de passagem por ele. E foi assim que eu conheci esse amigo, num templo budista, exatos três dias antes de conhecer a Muralha da China, um lugar que eu realmente ansiava conhecer. Passamos uma tarde juntos e ele não só me salvou de uma enrascada, mas me apresentou novos mundos, um conhecimento e me ajudou a descobrir quem eu realmente queria ser. Ele era um cidadão do mundo, e aquilo me encantava. Suas experiências eram vividas com afinco, suas descobertas configuravam uma inteligência única, ele transbordava cultura. Depois daquele encontro a muralha da china perdeu a graça por que ele havia me surpreendido de uma forma nunca imaginada.

Depois disso, cada viagem me trouxe momentos tão únicos, maravilhosos. Eu aprendi a apreciá-los. É possível se apaixonar por lugares, pessoas e momentos. Aos 12 anos eu ganhei uma coleção de livros que me apresentou a Grécia de uma forma diferente, desde então eu sonhei com aquela viagem, em refazer os passos de uma personagem que muito me cativou, como algo maravilhoso, único, mas ela era sempre deixada para depois uma vez que o trabalho ganhou um peso maior ou as férias passaram a ser em épocas não coincidentes com o verão grego. Finalmente, em 2017 conheci Atenas e algumas ilhas, e ao chegar em Santorini eu chorei, um choro emotivo, belo e singelo e naquele momento eu entendi o que todos falavam. O momento único e tão esperado de estar ali, presente, inteira realizando algo por mim. Se achamos que são os budistas que nos ensinam sobre como apreciar o momento, estamos enganados. Foi com os gregos que aprendi a arte de valorizar o momento único. A espera. A surpresa. A sorte de me perder em tons de azul para que eu não consiga pensar em mais nada a não ser onde eu estava, ali, naquele momento. Não duvido que o discurso de Mr. Perlman tenha sido inspirado pelos Gregos, uma vez que o mesmo era especialista em cultura greco-romana.

Talvez então, seria possível afirmar que na verdade viajar é como se apaixonar… como experimentar uma liberdade por completo - ou não... e na ausência de liberdade, descobrir o quanto ela é importante. É crescer em tempo recorde, é amadurecer por completo... é saber que nada é por acaso, nem mesmo as gentilezas inesperadas de quem te salva de uma enrascada. A apreciação se faz a cada descoberta, a cada confirmação. Um fechar de olhos e o vento no rosto - a sensação de realização, de estar ali. De ver o pôr do sol mais lindo, que logo será substituído por outro, em outro país, ou naquela cidade, no dia seguinte. É dedicar-se a espera de um instante como o final da tarde ou o amanhecer na esperança de apreciá-lo. É ouvir uma música conhecida num supermercado e não reparar que você está dançando. A apreciação do simples, do impulso... do natural... da falta de planos. É ter o controle e perdê-lo. Não há outra descrição. É sobre viver com leveza e ignorar todo o resto, assim como a música que motivou esse texto.